By Marcelo Salamon
11.05.2026

Resumo
O presente estudo estabelece uma análise comparativa e criminológica entre dois dos maiores assassinos em série da história da América Latina: o colombiano Luis Alfredo Garavito (“La Bestia”) e o brasileiro Pedro Rodrigues Filho (“Pedrinho Matador”). Sob o prisma da psicologia forense e da vitimologia, o artigo investiga como os contextos de vulnerabilidade socioeconômica, falhas institucionais e traumas de desenvolvimento infantil atuaram como catalisadores para trajetórias de violência extrema. Examinam-se as divergências metodológicas e motivacionais de ambos os criminosos, contrapondo a predação sexual organizada e instrumental de Garavito ao vigilantismo impetuoso e reativo de Rodrigues Filho. Por fim, discute-se o impacto dessas trajetórias nos sistemas de justiça penal e na formulação de políticas públicas de proteção a populações vulneráveis na Colômbia e no Brasil.
Introdução
O fenômeno do homicídio em série representa um dos maiores desafios analíticos para as ciências criminais contemporâneas, exigindo uma abordagem interdisciplinar que transite entre a sociologia da violência, a psiquiatria forense e o direito penal. Na América Latina, as dinâmicas desse crime frequentemente se entrelaçam com cenários de profunda desigualdade social, conflitos internos e fragilidade das instituições de segurança pública, fatores que geram amplas zonas de vulnerabilidade propícias à atuação de predadores seriais.
Este artigo propõe um exame comparativo de dois perfis criminosos emblemáticos do continente: Luis Garavito e Pedro Rodrigues Filho. Embora compartilhem o marco geográfico sul-americano e um número de vítimas que os posiciona no topo das estatísticas criminais mundiais, as estruturas psicopatológicas de suas ofensivas revelam lógicas distintas. Enquanto o caso colombiano evidencia a exploração sistemática da miséria infanto-juvenil por meio de um modus operandi dissimulado e predatório, o cenário brasileiro expõe uma conduta pautada pelo vigilantismo e pela violência reativa, justificada sob o manto de uma ética marginal particular. Analisar essas diferenças permite compreender não apenas a psique desses indivíduos, mas também as falhas estruturais dos Estados em antecipar e conter a barbárie.
Quem foi Luis Garavito, ‘La Bestia’?
Luis Garavito, infamemente conhecido como ‘La Bestia’, é um dos serial killers mais notórios da história, responsável pela morte de inúmeras crianças na Colômbia durante a década de 1990. Nascido em 25 de janeiro de 1957, na cidade de Génova, Garavito teve uma infância marcada por abusos e dificuldades, o que pode ter influenciado seu comportamento violento no futuro. Com um histórico de problemas mentais, ele desenvolveu comportamentos que culminaram em uma série de crimes hediondos.
Os crimes de Garavito estão intimamente ligados ao contexto social da Colômbia na época. Durante os anos 90, o país enfrentava uma crisis de violência ligada ao narcotráfico e à pobreza. Esse ambiente caótico ofereceu um terreno fértil para atos brutais, e Garavito explorou essa vulnerabilidade. Ele utilizou de seus conhecimentos de psicologia para atrair suas vítimas, principalmente crianças e adolescentes em situação de rua, prometendo-lhes abrigo e proteção. Essa abordagem manipuladora demonstrou sua capacidade de despistar e desviar a atenção das autoridades.
Garavito confessou ter assassinado mais de 300 vítimas, embora o número oficial seja de cerca de 138, o que lhe rendeu o título de um dos serial killers mais mortais do mundo. Sua prisão ocorreu em 1999, após uma investigação que destinou anos de esforço e coletou evidências que posteriormente levaram a sua condenação. Os crimes de Garavito não apenas chocaram a Colômbia, mas desencadearam uma discussão mais ampla sobre a segurança infantil, a justiça penal e a necessidade de proteger as populações vulneráveis em um ambiente hostil.
O Impacto dos Crimes de Garavito na Colômbia
Os crimes de Luis Garavito, conhecido como “La Bestia”, tiveram um efeito profundo e duradouro na Colômbia, abalando a sociedade de maneira sem precedentes. O serial killer, responsável pela morte de um grande número de crianças e adolescentes, não apenas fez com que o país enfrentasse uma realidade assustadora, mas também gerou um clima de medo e desconfiança que permeou diversas camadas da população. As atrocidades cometidas por Garavito expuseram as fragilidades da proteção infantil nas áreas vulneráveis, levantando questões sobre segurança e responsabilidade do estado em prevenir tais crimes.
A resposta às ações de Garavito resultou em uma série de mudanças significativas na legislação colombiana. O governo implementou novas leis voltadas para a proteção infantil, buscando aumentar a segurança das crianças em escolas e comunidades. Esperava-se que, ao endurecer as punições para crimes relacionados a crianças, a sociedade pudesse evitar que eventos tão devastadores se repetissem. Além disso, forças de segurança foram mobilizadas para aumentar a vigilância em áreas de alto risco, promovendo campanhas de conscientização sobre a segurança das crianças.
A cobertura da mídia em torno dos crimes de Garavito desempenhou um papel crucial na formação da percepção pública sobre o caso. Os meios de comunicação não apenas informaram sobre os detalhes horrendos dos crimes, mas também geraram um debate sobre a natureza da violência, a sanidade mental de Garavito e como a sociedade deveria reagir. Os relatos jornalísticos expuseram a brutalidade do serial killer de forma tão vívida que isso intensificou o medo público. Com o aumento do interesse da mídia, a história de Garavito se tornou um símbolo do combate a crimes horrendos, levando a sociedade colombiana a questionar suas próprias vulnerabilidades e a necessidade de proteger suas crianças.
Pedro Rodrigues Filho, o ‘Pedrinho Matador’
Pedro Rodrigues Filho, amplamente conhecido como ‘Pedrinho Matador’, emerge como uma figura emblemática na criminologia brasileira. Nascido em 1954 no interior de São Paulo, sua juventude foi marcada por um ambiente familiar tumultuado e violento, o que pode ter influenciado seu desenvolvimento psicológico. Desde jovem, Pedrinho demonstrou tendências agressivas, e após a morte de seu pai, um evento que impactou sua vida profundamente, suas ações se tornaram cada vez mais violentas.
Os crimes de Pedrinho são considerados dos mais sombrios da história brasileira. Ele supostamente assassinou mais de 100 pessoas, um número que, se confirmado, o posicionaria como o maior serial killer do Brasil. A maioria de suas vítimas eram membros de gangues ou pessoas que, segundo Pedrinho, tinham vínculos com crimes. Durante sua trajetória criminosa, Pedrinho justificou suas ações alegando uma espécie de ‘justiça’ pessoal, alegando que estava se livrando da sociedade de indivíduos que considerava prejudiciais.
A notoriedade de Pedrinho Matador transcendeu os crimes que cometeu, suscitando um interesse peculiar em sua psique. Especialistas em criminologia tentam desvendar o que levou um indivíduo a tal brutalidade. Seu perfil psicológico revelou traços de uma personalidade antisocial, com falta de empatia e remorso. A sua maneira de relacionar-se com as suas vítimas, muitas vezes se vangloriando dos atos cometidos, levanta questões sobre a complexidade da natureza humana e as influências sociais e psicológicas que podem nortear comportamentos extrema e violentamente desviantes.
Comparação entre Luis Garavito e Pedro Rodrigues Filho
Luis Garavito e Pedro Rodrigues Filho, dois dos mais notorios serial killers da história, apresentam peculiaridades que os tornam fascinantes para criminologistas e estudiosos da criminalidade. Apesar de ambos serem de países sul-americanos e terem cometido atrocidades indescritíveis, suas motivações e estilos de ofensivas contrastam significativamente.
Garavito, conhecido como “La Bestia” na Colômbia, era um predador que mirava em suas vítimas adolescentes, sendo suas ações muitas vezes estimuladas por traumas de infância e um comportamento aparentemente sedutor que ocultava sua verdadeira natureza. Seu método era sistemático e calculado, refletindo um profundo entendimento da manipulação humana. Em contraste, Pedro Rodrigues Filho, conhecido como “Pedrinho Matador”, no Brasil, era um killer muitas vezes impetuoso, afirmando que sua motivação vinha de um desejo de vingança contra aqueles que haviam cometido injustiças. Ambos, em suas trajetórias, deixaram um rastro de dor e sofrimento, mas suas razões para agir e como se aproximavam de suas vítimas eram diferentes.
Outra diferença significativa entre Garavito e Rodrigues Filho reside na resposta da sociedade e das autoridades. Enquanto Garavito operou de maneira furtiva por anos, muitas vezes escapando das redes de investigação, suas eventual captura e julgamento provocaram um debate sobre o gerenciamento de criminosos serial na Colômbia. Por outro lado, o caso de Rodrigues Filho trouxe à tona uma discussão sobre segurança pública no Brasil e a eficácia das forças policiais em lidar com a criminalidade. Ambos os casos continuam a ressoar, pois refletem não apenas os horrorosos atos dos assassinos, mas também a necessidade de uma reflexão crítica sobre as falhas nel sistema de justiça e seus impactos na sociedade.
Conclusão
A análise comparativa entre Luis Garavito e Pedro Rodrigues Filho demonstra que o homicídio em série não possui uma gênese uniforme, manifestando-se por meio de estruturas clínicas e operacionais distintas. Enquanto Garavito se consolidou como um predador sexual estritamente organizado e instrumental — que instrumentalizava o carisma e a vulnerabilidade social de menores abandonados para a satisfação de impulsos sádicos —, Rodrigues Filho operou sob uma dinâmica de agressividade predominantemente impulsiva e reativa, ancorada no mecanismo defensivo da justificação moral e do vigilantismo.
Ambos os casos funcionam como severos diagnósticos das falhas estruturais nos aparatos de persecução penal e proteção social da América Latina durante o final do século XX. A impunidade prolongada de Garavito evidenciou a falta de integração dos sistemas de inteligência policial colombianos em meio ao caos social do período, enquanto a trajetória intra e extrapenitenciária de Pedrinho Matador expôs as deficiências crônicas do sistema prisional brasileiro em gerenciar indivíduos com Transtorno de Personalidade Antissocial grave.
Em última análise, o legado sombrio deixado por esses criminosos impõe às ciências jurídicas e à segurança pública a necessidade de superação de modelos puramente reativos de punição. O combate eficaz a figuras de tamanha periculosidade social depende do fortalecimento de políticas públicas preventivas de proteção à infância, do aprimoramento das técnicas de perfilamento criminal (criminal profiling) e de reformas estruturais nos sistemas de execução penal. Somente através do desenvolvimento de mecanismos de vigilância técnico-científica e de auditoria criminológica será possível mitigar as vulnerabilidades que permitem a proliferação e a ocultação de comportamentos violentos desviantes de magnitude extrema.
Referências Bibliográficas
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