Na Música dos Rolling Stones — Uma Análise Criminológica e Musical
BY MARCELO SALAMON
19.07.2026

Resumo
Este artigo propõe uma análise interdisciplinar da canção “Midnight Rambler”, composta por Mick Jagger e Keith Richards e lançada no álbum Let It Bleed (1969), estabelecendo suas conexões com o caso de Albert DeSalvo, o “Estrangulador de Boston”, responsável pela morte de treze mulheres entre 1962 e 1964 em Massachusetts, Estados Unidos. Partindo de uma abordagem que integra criminologia forense, psiquiatria criminal e musicologia, o trabalho examina o modus operandi do assassino, seu perfil psiquiátrico, os fatores biográficos e sociais que contribuíram para a formação de seu comportamento violento, e a maneira como a estrutura musical da canção — em especial seus solos de guitarra e variações de andamento — traduz esteticamente o ciclo de tensão, compulsão e descarga que caracteriza o comportamento de agressores seriais com traços psicopáticos. Conclui-se que a obra funciona como um raro exemplo de tradução sonora de um estado mental criminoso, aproximando arte popular e ciência forense.
Palavras-chave: Criminologia forense; Albert DeSalvo; Psicopatia e narrativa musical.
Introdução
A relação entre arte e crime é antiga e multifacetada. Ao longo da história, compositores, escritores e cineastas têm se voltado para casos criminais reais como fonte de inspiração, seja para denunciar, seja para explorar esteticamente os limites da natureza humana. Um dos exemplos mais peculiares dessa interseção é a canção “Midnight Rambler”, dos Rolling Stones, lançada em 1969 no álbum Let It Bleed. Composta majoritariamente durante uma viagem de Mick Jagger e Keith Richards a Positano, na Itália, a música é amplamente reconhecida pela crítica musical e pelos próprios integrantes da banda como uma referência direta ao caso de Albert Henry DeSalvo, o “Estrangulador de Boston” (Boston Strangler), autor confesso de uma série de assassinatos de mulheres ocorridos na região metropolitana de Boston no início dos anos 1960.
O interesse deste artigo situa-se exatamente no ponto de encontro entre dois campos aparentemente distantes: a criminologia forense, que busca compreender os mecanismos psicológicos, sociais e comportamentais por trás de um crime, e a musicologia, que investiga como estruturas sonoras comunicam estados emocionais e narrativos. Proponho que “Midnight Rambler” não é apenas uma canção “sobre” um assassino, mas uma tentativa — consciente ou intuitiva de seus autores — de traduzir em linguagem musical o ciclo psicológico da compulsão homicida: a tensão crescente, a urgência incontrolável, o ato em si e a breve sensação de alívio que se segue, característica descrita na literatura psiquiátrica sobre agressores seriais.
Para isso, o artigo está estruturado em quatro eixos principais:
- Uma reconstrução biográfica de Albert DeSalvo, com atenção especial à sua infância, à dinâmica familiar e ao contexto social em que se desenvolveu;
- Uma descrição de seu modus operandi enquanto autor das mortes atribuídas ao Estrangulador de Boston;
- Uma discussão de seu perfil psiquiátrico à luz das categorias diagnósticas contemporâneas;
- Um capítulo dedicado exclusivamente à análise da canção, momento a momento, relacionando elementos musicais específicos aos estados psicológicos descritos nos eixos anteriores.
A Infância e a Formação de Albert DeSalvo
Albert Henry DeSalvo nasceu em 3 de setembro de 1931, em Chelsea, Massachusetts, em uma família de origem humilde e profundamente disfuncional. Seu pai, Frank DeSalvo, era um homem violento, alcoólatra e com envolvimento em pequenos delitos, que submetia a esposa e os seis filhos a episódios recorrentes de violência física. Relatos históricos indicam que o pai chegou a vender as filhas para trabalhos forçados temporários e que praticava atos de crueldade extrema diante das crianças, incluindo agressões severas contra a mãe de Albert na frente dos filhos.
Esse ambiente de exposição precoce à violência doméstica é amplamente reconhecido pela literatura criminológica como um fator de risco significativo para o desenvolvimento de transtornos de personalidade e comportamentos antissociais na vida adulta. Crianças criadas sob esse tipo de contexto frequentemente internalizam padrões de relação marcados pela associação entre intimidade, poder e violência — um padrão que, décadas mais tarde, muitos pesquisadores identificariam como um dos possíveis substratos psicológicos por trás dos crimes de DeSalvo.
Além da violência doméstica, Albert DeSalvo teve uma trajetória juvenil marcada por pequenos delitos, incluindo furtos, e por relatos de crueldade contra animais — outro elemento frequentemente citado na literatura sobre o desenvolvimento de traços psicopáticos na infância, integrando o que ficou conhecido informalmente como a “tríade de MacDonald” (crueldade com animais, piromania e enurese persistente). DeSalvo serviu no Exército dos Estados Unidos entre 1948 e 1956, período em que se casou e teve dois filhos, e onde já acumulava acusações veladas de conduta sexual inadequada, embora nenhuma tenha resultado em condenação formal na época.
Modus Operandi: O Padrão dos Crimes Atribuídos ao Estrangulador de Boston
Entre junho de 1962 e janeiro de 1964, a região da Grande Boston foi palco de uma série de treze assassinatos de mulheres, com idades entre 19 e 85 anos, que aterrorizaram a cidade e mobilizaram uma das maiores operações policiais da história de Massachusetts até então. As vítimas eram predominantemente mulheres que viviam sozinhas, abordadas em seus próprios apartamentos sob pretextos diversos — DeSalvo se apresentava frequentemente como técnico de manutenção, entregador ou prestador de serviços, ganhando a confiança das vítimas antes de cometer as agressões.
O modus operandi apresentava elementos ritualísticos consistentes: o estrangulamento era executado utilizando peças de roupa ou objetos domésticos das próprias vítimas — meias-calça, cintos de roupão, fronhas — amarrados ao redor do pescoço, frequentemente com um laço decorativo em formato de arco deixado como assinatura. Em diversos casos havia evidência de violência sexual associada ao ato homicida, e o cenário do crime era, em vários episódios, deliberadamente organizado pelo agressor após a morte da vítima, sugerindo um componente ritualístico e simbólico que ultrapassa a mera eliminação física.
Esse padrão de organização pós-crime, combinado com a escolha metódica de vítimas vulneráveis e a variação premeditada de disfarces para obter acesso, é característico do que a literatura de perfilamento criminal classifica como um agressor organizado, com capacidade de planejamento, controle situacional e frieza emocional durante a execução do delito — características centrais dos quadros associados à psicopatia.
Perfil Psiquiátrico: Entre a Psicopatia e a Compulsão
A discussão sobre o diagnóstico psiquiátrico de Albert DeSalvo permanece controversa entre especialistas até os dias atuais. Ele nunca foi formalmente julgado pelos assassinatos do Estrangulador de Boston — sua confissão detalhada dos crimes, obtida majoritariamente através de conversas com seu advogado F. Lee Bailey e com outro detento, F. “Beau” DiNatale, não foi acompanhada de um processo criminal específico para esses homicídios, já que DeSalvo foi condenado e sentenciado à prisão perpétua por outros crimes sexuais anteriores, os “Green Man” assaults. Ele foi assassinado na prisão em 1973, antes que pudesse ser processado formalmente pelos estrangulamentos, e testes de DNA realizados décadas depois, em 2013, confirmaram sua ligação genética com pelo menos uma das vítimas, a de Mary Sullivan.
Do ponto de vista psiquiátrico-forense, o comportamento atribuído a DeSalvo é compatível com o que a literatura contemporânea descreve como um transtorno de personalidade antissocial com traços psicopáticos acentuados, conforme os critérios que posteriormente seriam sistematizados na Escala de Psicopatia de Hare (PCL-R):
- Encanto superficial;
- Manipulação instrumental das vítimas através de disfarces profissionais;
- Ausência aparente de remorso;
- Impulsividade sexual compulsiva;
- Padrão de comportamento predatório camuflado por uma fachada de normalidade social (DeSalvo era descrito por vizinhos como um homem de família, trabalhador e sociável).
Um elemento central para a compreensão do caso é o conceito de compulsão homicida cíclica, presente em parte da literatura sobre agressores seriais: um padrão em que a tensão psicológica se acumula progressivamente entre os episódios violentos até atingir um ponto em que o indivíduo sente-se, subjetivamente, incapaz de resistir ao impulso de agir, e o ato violento — muitas vezes associado a componentes sexuais — funciona como via de descarga dessa tensão acumulada, seguida por um período de relativa calma que antecede o reinício do ciclo. É exatamente esse ciclo psicológico — tensão, urgência, ato, alívio temporário — que a canção dos Rolling Stones parece capturar em sua estrutura sonora, como será detalhado a seguir.
Capítulo Especial: A Tradução Sonora da Compulsão em “Midnight Rambler”
Este capítulo dedica-se especificamente a examinar como a estrutura musical de “Midnight Rambler” reproduz, em linguagem sonora, o ciclo psicológico de tensão e descarga discutido na seção anterior — sem reproduzir a letra da canção, mas descrevendo sua arquitetura sonora e temática.
A canção abre em compasso lento e arrastado, quase hipnótico, sustentado por uma linha de gaita (harmônica) tocada por Mick Jagger que evoca um ambiente noturno, opressivo e claustrofóbico. Esse andamento inicial funciona como representação sonora do estado de tensão latente — o período entre os crimes em que, segundo o modelo de compulsão cíclica descrito acima, a pressão psicológica do agressor vai se acumulando silenciosamente sob uma aparência de normalidade, tal como a fachada social que DeSalvo mantinha diante de vizinhos e familiares.
Por volta da metade da faixa, ocorre uma ruptura abrupta de andamento: a banda acelera drasticamente o tempo, e Keith Richards introduz uma série de frases de guitarra cortantes, quase erráticas, que se sobrepõem à batida da bateria de Charlie Watts em um crescendo de intensidade. Esse momento de aceleração — que muitos críticos musicais descrevem como o ponto em que a canção “perde o controle” — corresponde, na leitura aqui proposta, à transição do estado de tensão acumulada para o momento do ato: a perda de contenção comportamental que caracteriza, na literatura forense, a passagem ao acting-out violento em agressores com controle de impulsos comprometido.
Os solos de guitarra que se seguem a essa ruptura não obedecem a uma lógica melódica convencional e previsível; são construídos sobre repetições curtas, quase obsessivas, de frases curtas que se intensificam e depois se dissolvem, para logo recomeçar — um padrão musical que espelha estruturalmente o próprio ciclo de compulsão-descarga-recomeço discutido no perfil psiquiátrico. A ausência de resolução melódica clara, típica do blues elétrico explorado pela banda nesse período, reforça essa sensação de urgência não plenamente satisfeita, compatível com relatos da literatura forense sobre agressores seriais que descrevem uma sensação de alívio apenas parcial e temporário após o ato violento, o que explicaria a reincidência cíclica.
Ao final da faixa, o andamento retorna gradualmente ao ritmo lento inicial, fechando a estrutura em um formato circular — início e fim se equivalem sonoramente — que reproduz, de maneira quase didática, a lógica cíclica e recorrente da compulsão homicida: o retorno ao estado de calma aparente que antecede o próximo episódio de tensão crescente. Essa circularidade estrutural é, do ponto de vista desta análise, o elemento mais sofisticado da composição enquanto retrato sonoro de um estado mental patológico, ainda que Jagger e Richards não tenham necessariamente formulado sua composição em termos clínicos.
Vale destacar que a escolha de Jagger e Richards por se inspirar no caso do Estrangulador de Boston não foi acidental: o caso teve enorme repercussão midiática nos Estados Unidos durante os anos em que a banda realizava turnês frequentes pelo país, e a figura do assassino que se disfarça de prestador de serviços para obter acesso a mulheres sozinhas em suas próprias casas capturou o imaginário coletivo americano da época, tornando-se material simbólico fértil para uma banda já conhecida por explorar temas sombrios e transgressivos em sua obra.
Conclusão
A análise interdisciplinar de “Midnight Rambler” à luz do caso Albert DeSalvo revela uma convergência pouco explorada entre criminologia forense, psiquiatria e musicologia. A canção dos Rolling Stones não apenas faz referência temática ao Estrangulador de Boston, mas constrói, através de sua estrutura sonora — variações de andamento, solos de guitarra não resolutivos e uma arquitetura circular —, uma representação estética do ciclo psicológico de tensão, compulsão e descarga que a literatura forense associa a agressores seriais com traços psicopáticos acentuados.
A trajetória biográfica de DeSalvo, marcada por violência doméstica extrema na infância, negligência e exposição precoce a modelos abusivos de relação, oferece um substrato explicativo relevante, ainda que não determinístico, para a compreensão de seu comportamento adulto. Esse tipo de análise reforça a importância de abordagens interdisciplinares na criminologia contemporânea, capazes de dialogar com produções culturais e artísticas como fontes complementares de compreensão do fenômeno criminal, sem jamais substituir o rigor da investigação científica e forense propriamente dita.
Referências Bibliográficas
- BOSTON GLOBE. DNA evidence links Albert DeSalvo to final Boston Strangler murder. Boston, 2013.
- CAHILL, Susan. Improbable at Best: The True Story of the Boston Strangler. Boston: Northeastern Press, 2001.
- HARE, Robert D. Without Conscience: The Disturbing World of the Psychopaths Among Us. New York: Guilford Press, 1993.
- JUNGER, Sebastian. A Death in Belmont. New York: W. W. Norton & Company, 2006.
- KELLY, Susan. The Boston Stranglers: The Public Conviction of Albert DeSalvo and the True Story of Eleven Shocking Murders. New York: Kensington Publishing, 1995.
- MACDONALD, John M. “The Threat to Kill”. American Journal of Psychiatry, v. 120, n. 2, p. 125-130, 1963.
- ROLLING STONES. Let It Bleed. London Records/Decca Records, 1969.
- SANDERS, Ed. The Family: The Story of Charles Manson’s Dune Buggy Attack Battalion. New York: Da Capo Press, 2002. (referência complementar sobre crimes seriais e cultura musical dos anos 1960)