Criminologia, Direito Penal Internacional e Análise Forense
By Marcelo Salamon
02.06.2026
Palavras-chave: Cosa Nostra, ‘Ndrangheta, Camorra, Sacra Corona Unita, Rotas de Tráfico, Facções Criminosas, Criminologia Forense.

Introdução
O estudo do crime organizado transnacional exige decifrar mais do que a história isolada de seus clãs, requerendo a compreensão de uma complexa rede de governança paralela. As máfias italianas, frequentemente retratadas no imaginário popular de forma romantizada, operam na realidade como conglomerados de alta sofisticação corporativa e letalidade. Este artigo analisa a fundo a natureza das relações entre as quatro grandes organizações da Itália, alternando entre alianças estratégicas e guerras sangrentas, suas rotas globais de suprimento e os métodos logísticos que movem bilhões de dólares anualmente, desafiando as barreiras do direito penal internacional.
I. Relacionamento Intramáfias: Amigos ou Inimigos?
Uma das dúvidas mais comuns na criminologia forense é se as máfias italianas atuam juntas ou se são inimigas mortais. A resposta transita entre a pax mafiosa, que significa uma paz de conveniência, e a guerra por território, dependendo diretamente do mercado e da liderança vigente em cada período.
Historicamente, a ‘Ndrangheta e a Cosa Nostra mantêm uma relação de profundo respeito e cooperação estratégica. Durante os anos 1980 e 1990, enquanto a Cosa Nostra enfrentava abertamente o Estado italiano, a ‘Ndrangheta ofereceu suporte logístico e, inteligentemente, aproveitou o foco policial na Sicília para assumir o controle do tráfico de cocaína, de modo que elas não competem pelo mesmo território na Itália e evitam guerras diretas.
Por outro lado, a Camorra representa a instabilidade crônica por não possuir um comando centralizado, sendo considerada a organização mais imprevisível de todas. Seus clãs passam mais tempo guerreando entre si, como na sangrenta guerra civil entre os Di Lauro e a Secondigliano Alliance, do que estabelecendo alianças de longo prazo com outras máfias, embora mantenham relações comerciais pontuais para compra de drogas com a ‘Ndrangheta.
A Sacra Corona Unita atua como uma espécie de máfia satélite, pois nasceu sob a influência direta de rituais da ‘Ndrangheta, criada por Giuseppe Rogoli. Por ser consideravelmente menor que as demais, ela atua frequentemente como uma extensão logística ou aliada menor das outras três no mar Adriático.
Se na Itália as máfias delimitam rigidamente seus territórios corporativos para evitar o caos dos anos 1980, no cenário internacional elas operam em um regime de co-opetição, o que significa que competem pelo mercado de varejo, mas cooperam massivamente na infraestrutura de atacado e no suborno de autoridades alfandegárias.
II. Como Traficam e Quais São as Rotas Globais
A engrenagem financeira das máfias gira em torno de rotas logísticas ultra-eficientes, nas quais elas não operam sozinhas, mas conectam-se a cartéis locais em uma rede de terceirização do crime.
A rota da cocaína evidencia a hegemonia da ‘Ndrangheta, que se estabeleceu como a compradora preferencial dos produtores da América Latina na Colômbia, no Peru e na Bolívia. Para obter preços de atacado imbatíveis, ela frequentemente financia carregamentos inteiros nos quais clãs da Camorra e da Cosa Nostra entram como investidores minoritários.
O Brasil funciona como o principal hub de escoamento e trampolim logístico transcontinental. Ali, a ‘Ndrangheta firmou uma parceria operacional robusta com o Primeiro Comando da Capital, facção que gerencia o transporte terrestre e a estufagem dos contêineres nos portos brasileiros.
Os carregamentos chegam à Europa através de portos controlados ou severamente infiltrados pelas máfias, destacando-se Gioia Tauro, que fica na Calábria e é o coração da ‘Ndrangheta, além de Roterdã na Holanda, Antuérpia na Bélgica e Algeciras na Espanha.
A rota do Adriático e do Leste Europeu é voltada para armas e contrabando, sendo gerenciada principalmente pela Sacra Corona Unita e clãs da Camorra. Armas de nível militar saem dos Bálcãs, cruzam o Mar Adriático em lanchas rápidas ou navios mercantes e entram pela região da Apúlia, abastecendo tanto os clãs italianos quanto o mercado ilegal na Europa Ocidental e na América Latina.
Essa mesma infraestrutura marítima é utilizada na rota dos seres humanos e do tabaco para o contrabando de cigarros e para a exploração de rotas de imigração ilegal vindas do norte da África e do Oriente Médio.
Para burlar a fiscalização nos portos europeus, existe também o corredor africano, onde grandes volumes de cocaína são desviados para a África Ocidental, passando por Guiné-Bissau, Gana e Líbia antes de subir para a Europa continental.
No destino final, a lavagem de dinheiro digital é feita por meio do sistema informal fei ch’ien com intermediários chineses em Hong Kong, ou via redes hawala e criptomoedas, ocultando os rastros financeiros das corporações tradicionais.
III. Contexto Histórico — Das Origens ao Apogeu Sangrento
A história da máfia italiana não começa em Hollywood. Ela começa no século XIX, nas terras áridas da Sicília, onde grupos de homens armados, os gabellotti, mediavam conflitos entre latifundiários e camponeses, cobrando pela proteção que o Estado fraco não oferecia, e dali nasceu a Cosa Nostra, a organização que moldaria o crime organizado moderno.
No sul de Nápoles, a Camorra emergiu nas prisões borbônicas já no início do século XIX, tornando-se uma força paralela ao poder estatal na Campânia. Na Calábria, a ‘Ndrangheta, que é mais fechada, mais secreta e estruturada em laços de sangue, cresceu silenciosamente enquanto a Cosa Nostra dominava os holofotes. Na Apúlia, a Sacra Corona Unita nasceu apenas em 1983, fundada simbolicamente na prisão de Trani na noite de Natal de 1981.
As máfias italianas são empresas do crime com um grau de sofisticação que rivaliza com corporações multinacionais e com um histórico de violência que nenhuma corporação poderia admitir.
Os anos 1980 foram marcados pela brutalidade da Segunda Guerra da Máfia Siciliana entre 1981 e 1983, liderada pela família Corleonesi, chefiada por Salvatore “Totò” Riina. Riina ordenou o extermínio sistemático de famílias rivais, eliminando centenas de mafiosos e seus parentes em uma estratégia de terror total onde quem não se submetia era executado e sua família com ele.
No ano de 1982, o General Carlo Alberto Dalla Chiesa, Prefecto de Palermo, foi assassinado pela Cosa Nostra junto com sua esposa, o que fez o Estado italiano reagir com a primeira legislação antimafia séria.
Entre os anos de 1983 e 1985, Tommaso Buscetta, o primeiro grande pentito, que significa delator, entregou ao juiz Giovanni Falcone o mapa completo da Comissão siciliana, e sua colaboração resultou no Maxiprocesso de Palermo.
Esse Maxiprocesso de Palermo ocorreu entre 1986 e 1987, tornando-se o maior julgamento antimafia da história, com 475 acusados e 360 condenações, onde Riina foi condenado à revelia à prisão perpétua.
No ano de 1987, na Calábria, a ‘Ndrangheta começou sua expansão silenciosa no tráfico internacional de cocaína, aproveitando que a atenção policial estava totalmente focada na Sicília.
A Stagione delle Stragi, que significa temporada dos massacres, começou em 1992 com dois dos assassinatos mais impactantes da história italiana. Em maio, o juiz Giovanni Falcone, herói antimafia, foi morto em uma explosão na autopista de Capaci junto com sua esposa e três agentes de escolta. Dois meses depois, o juiz Paolo Borsellino foi morto com 500 kg de explosivos na Via D’Amelio, em Palermo.
Os assassinos foram instrumentalizados pela ala radical de Riina, que acreditava poder dobrar o Estado italiano pela força. Errou o cálculo porque a comoção nacional gerou uma resposta policial sem precedentes, de modo que em janeiro de 1993, Salvatore “Totò” Riina, o mais procurado da Itália há 23 anos, foi capturado em Palermo. Assumiu a chefia Bernardo Provenzano, que adotou uma estratégia oposta baseada no inabissamento, que significa imersão, cortando a violência e tornando a máfia invisível.
No ano de 1993, a Cosa Nostra detonou bombas em Milão, Roma e Florença, atingindo os Uffizi, a Via Palestro e o Laterano, em uma estratégia terrorista de Riina que fracassou politicamente, mas deixou dezenas de mortos.
Em 1996, Giovanni Brusca, o executor de Falcone, foi preso e mais tarde tornou-se colaborador, ocorrendo também a prisão de Pietro Aglieri e outros líderes da Comissão siciliana.
Entre os anos de 1998 e 2000, na Campânia, a Camorra viveu uma guerra civil entre os clãs Di Lauro e Secondigliano Alliance, que resultaria em centenas de mortes ao longo dos anos 2000, história retratada no livro e série Gomorra.
IV. As Quatro Grandes Organizações — Perfil Atual
A ‘Ndrangheta tem sua origem na Calábria, no sul da Itália, com fundação no século XIX e membros estimados entre 6.000 e 10.000 ativos em mais de 150 clãs. Ela é considerada hoje a organização criminosa mais poderosa da Itália e uma das mais poderosas do mundo. Sua força vem de um modelo de recrutamento único feito quase exclusivamente por laços de sangue e família, o que torna a infiltração policial extremamente difícil. Dividida em locali, que são células regionais, e ndrine, que representam clãs familiares, opera com disciplina rígida e hierarquia clara. Seu faturamento anual é estimado entre US$ 55 e 65 bilhões, controlando aproximadamente 80% do tráfico de cocaína na Europa, sendo que apenas no setor de turismo italiano ela responde por metade dos 3,3 bilhões de euros anuais extraídos pelas máfias do setor.
A Cosa Nostra tem sua origem na Sicília, fundada na primeira metade do século XIX com membros estimados entre 5.000 e 8.000, além de seus associados. Ela é a máfia original, com uma estrutura baseada em famílias lideradas por um capo mandamento, com uma cúpula deliberativa chamada Comissione ou Cupola. Ela foi a responsável pela criação do código do omertà, que significa a lei do silêncio. Após os golpes dos anos 90 e a captura de Bernardo Provenzano em 2006, passou por enfraquecimento relativo, mas segue ativa. Seu último grande chefe, Matteo Messina Denaro, ficou 30 anos foragido antes de ser capturado em janeiro de 2023, vindo a morrer de câncer em setembro do mesmo ano. Seu faturamento anual é estimado entre US$ 15 e 20 bilhões, sendo ainda dominante em extorsão, o chamado pizzo, contratos públicos na Sicília e lavagem de dinheiro via negócios legítimos.
A Camorra tem sua origem em Nápoles e na região da Campânia, fundada no início do século XIX com membros estimados em mais de 6.700 distribuídos em mais de 100 clãs independentes. Diferente das demais, a Camorra nunca teve uma estrutura centralizada, funcionando como uma confederação de clãs frequentemente em guerra entre si. Os mais poderosos incluem o Clan dei Casalesi de Caserta, o Sistema di Secondigliano e os Scissionisti di Secondigliano. Ela é notória pela violência urbana brutal no entorno de Nápoles e pelo controle do tráfico de resíduos tóxicos na chamada Terra dei Fuochi, que significa Terra dos Fogos. Seu faturamento anual é estimado entre US$ 15 e 17 bilhões, mostrando-se especialista em falsificações de roupas, medicamentos e DVDs, além de extorsão e gestão ilegal de resíduos industriais.
A Sacra Corona Unita tem sua origem na Apúlia, especificamente em Lecce e Salento, fundada em 1983 com membros estimados em cerca de 2.000 integrantes. Ela é a mais jovem das quatro organizações, fundada por Giuseppe Rogoli com rituais emprestados da ‘Ndrangheta. Historicamente ligada ao contrabando de cigarros e armas via Adriático, especialmente com a Albânia, ela perdeu coesão organizacional após uma série de prisões nos anos 2000, fragmentando-se, mas seus grupos afiliados seguem ativos no tráfico de drogas e seres humanos. Seu faturamento anual é estimado entre US$ 1 e 2 bilhões, operando em aliança com a máfia albanesa, sérvio-montenegrina e romena.
V. As Famílias que Caíram — e as que Sobreviveram
No grupo dos Corleonesi, pertencente à Cosa Nostra, tem-se o clã mais sanguinário da Sicília que dominou a Comissione nos anos 80 e 90. Com a prisão de Riina em 1993, de Provenzano em 2006 e a morte de Messina Denaro em 2023, a família perdeu a liderança nacional, embora associados locais persistam.
O Clan dei Casalesi, pertencente à Camorra, é o clã que inspirou o livro Gomorra. Seu chefe histórico, Francesco “Sandokan” Schiavone, foi preso em 1998, seu sucessor Antonio Iovine foi capturado em 2010 e Michele Zagaria em 2011, de modo que o clã foi drasticamente enfraquecido, mas não extinto.
A Famiglia Inzerillo, pertencente à Cosa Nostra, foi uma das grandes famílias sicilianas quase exterminada pelos Corleonesi na Segunda Guerra da Máfia. Seus sobreviventes fugiram para os Estados Unidos, mas a família foi parcialmente recomposta nas décadas seguintes com a Pax Mafiosa pós-Riina.
A Sacra Corona Unita deixou de existir como uma organização unificada e entidade única após as prisões dos anos 2000, fragmentando-se em grupos menores sem comando central.
Em contrapartida, diversas famílias e clãs persistem com muita força na atualidade. Na ‘Ndrangheta, os clãs Mancuso de Limbadi, Piromalli de Gioia Tauro, De Stefano-Tegano de Reggio Calabria e Bellocco de Rosarno continuam entre os mais poderosos da Calábria e possuem ramificações globais. Na Cosa Nostra, as famílias de Palermo, como Brancaccio, Pagliarelli e Porta Nuova, junto com a de Catania, representada por Santapaola-Ercolano, mantêm operações contínuas. Na Camorra, o Sistema di Secondigliano, que envolve os clãs Contini, Mallardo e Lo Russo, bem como os clãs de Scampia, seguem sendo forças dominantes.
VI. Faturamento e Áreas de Atuação
O faturamento anual combinado das quatro principais máfias italianas gira entre US$ 170 e 180 bilhões. Se o crime organizado fosse uma corporação legítima, ele seria equivalente à 19ª maior empresa do mundo.
As máfias italianas há muito superaram o modelo de extorsão local para operar como conglomerados criminosos transnacionais. No tráfico de cocaína, cerca de 80% da droga que entra na Europa passa por portos controlados pela ‘Ndrangheta, especialmente Gioia Tauro, sendo esta a principal fonte de receita.
A lavagem de dinheiro é feita via empresas de construção, restaurantes, imobiliárias, hotéis e contratos públicos inflados, tendo os fundos europeus de desenvolvimento como alvos recorrentes.
O tráfico de armas ocorre especialmente via Adriático com a atuação da Sacra Corona Unita e da Camorra, além de redes no Leste Europeu, enviando armas dos Bálcãs até a América Latina.
A extorsão, conhecida como pizzo, consiste em um sistema de proteção obrigatória para comerciantes e empresários, estimando-se que na Sicília cerca de 70% a 80% dos negócios realizam esse pagamento.
O tráfico de seres humanos utiliza a Rota Mediterrânea e Adriática para a imigração ilegal, englobando a exploração sexual e o trabalho escravo.
No setor de resíduos tóxicos, a Camorra controla o descarte ilegal de resíduos industriais em toda a Europa, gerando bilhões em lucros e envenenando a região da Terra dos Fogos.
As fraudes financeiras e fiscais baseiam-se na infiltração em licitações públicas, contratos de obras, saúde pública e distribuição de fundos da União Europeia.
Os crimes cibernéticos apresentam frentes online cada vez mais ativas, incluindo fraudes com cartão de crédito, phishing, ransomware e spyware comercial, como visto no caso eSurv ligado à ‘Ndrangheta.
O tráfico de drogas sintéticas demonstra uma expansão crescente de metanfetaminas, fentanil e novas substâncias psicoativas em parceria com cartéis mexicanos e grupos brasileiros.
No setor de turismo e hospitalidade, ocorre o controle de hotéis, restaurantes e agências para lavagem de dinheiro, movimentando cerca de 3,3 bilhões de euros por ano apenas neste setor na Itália.
As falsificações são uma especialidade da Camorra, que foca em produtos como roupas de luxo, eletrônicos e medicamentos em fábricas clandestinas.
O contrabando de tabaco é feito especialmente pela Sacra Corona Unita e pela Camorra via Adriático, movimentando um mercado de cigarros contrabandeados que equivale a bilhões anuais.
A máfia não é apenas violência, ela funciona como um sistema paralelo de governança econômica onde o Estado é fraco e ela preenche o vácuo.
VII. Os Grandes Chefões — Então e Agora
No século XX, os padrões do passado eram ditados por chefes temidos. Salvatore “Totò” Riina, que viveu entre 1930 e 2017, foi o líder dos Corleonesi e chefe mais temido da Cosa Nostra, ficando foragido por 23 anos até ser capturado em 1993, condenado a múltiplas prisões perpétuas e morrendo na cadeia com a alcunha de La Belva, que significa A Fera.
Bernardo Provenzano, que viveu entre 1933 e 2016, sucedeu Riina como chefe supremo da Cosa Nostra e ficou 43 anos foragido, marcando o maior período da história, sendo o responsável por introduzir a estratégia do inabissamento até ser capturado em 2006 com a alcunha de Il Ragioniere, que significa O Contador.
Matteo Messina Denaro, que viveu entre 1962 e 2023, foi o último grande chefe da Cosa Nostra, ficando 30 anos foragido até ser capturado em janeiro de 2023 em Palermo enquanto recebia quimioterapia, falecendo em setembro do mesmo ano com as alcunhas de U Siccu, que significa O Magro, e Diabolik.
Raffaele Cutolo, que viveu entre 1941 e 2021, fundou a Nueva Camorra Organizzata em 1970, transformando a Camorra em um poder nacional, e mesmo preso desde 1983 continuou dirigindo operações de dentro da cadeia até sua morte.
Paolo Di Lauro, conhecido como Ciruzzo ‘o Milionario, foi chefe do poderoso clã Di Lauro da Camorra em Secondigliano, sendo que a guerra que estourou após a prisão de seu filho Cosimo gerou mais de 100 mortes entre 2004 e 2005, terminando com sua captura em 2005.
Francesco “Sandokan” Schiavone foi o chefe do Clan dei Casalesi da Camorra e serviu de inspiração para o personagem de Gomorra, sendo preso em 1998 e condenado à prisão perpétua por homicídios, tráfico e associação mafiosa.
Em relação às lideranças atuais e foragidos da ‘Ndrangheta, a organização não tem um único padrino por causa de sua estrutura descentralizada, de modo que os clãs mais poderosos possuem liderança própria, tendo membros dos clãs Mancuso, Piromalli e Bellocco como alvos prioritários das forças de segurança italianas e da Interpol, muitos operando a partir da América do Sul ou de outras regiões europeias.
VIII. Crimes Cibernéticos — A Nova Fronteira
As máfias italianas migraram progressivamente para o espaço digital. Em 2024, uma operação da Europol resultou na prisão de 106 suspeitos ligados a clãs da Camorra, Casamonica e Sacra Corona Unita por fraudes online que geraram 10 milhões de euros em um único ano, revelando redes de phishing, fraudes com cartão de crédito e clonagem de identidade.
Um caso emblemático envolveu a empresa italiana eSurv, ligada à ‘Ndrangheta, que produzia spyware que era comercializado oficialmente para fins legais de vigilância, mas foi utilizado para espionar comunicações privadas de italianos comuns, incluindo jornalistas e ativistas.
Em 2015, uma operação europeia desmantelou um esquema siciliano com conexões à Cosa Nostra que utilizou hackers russos, ucranianos e romenos para roubo de dados de cartões de crédito, majoritariamente de cidadãos norte-americanos.
A lavagem de dinheiro digital também ganhou relevância, onde transferências via criptomoedas, uso de redes hawala, que são sistemas informais de transferência, e intermediários asiáticos como o fei ch’ien substituem progressivamente os métodos tradicionais de lavar dinheiro através de negócios físicos.
IX. Terminologia Forense Essencial
O termo Omertà refere-se ao código de silêncio da Cosa Nostra, consistindo na proibição absoluta de colaborar com autoridades sob pena de morte.
O termo Pentito define o mafioso que se torna colaborador da justiça em troca de proteção e redução de pena, tendo pentiti como seu plural.
O termo Pizzo representa a taxa de proteção cobrada de comerciantes e empresários em um sistema de extorsão sistemática.
O termo Locale indica a célula territorial da ‘Ndrangheta, consistindo na menor unidade operacional com autonomia relativa.
Conclusão
A evolução das máfias italianas demonstra que a longevidade do crime organizado reside na sua capacidade de simbiose econômica e camuflagem. Ao transitarem de clãs violentos rurais para holdings internacionais com atuação cibernética e parcerias estratégicas com facções sul-americanas, essas organizações blindam suas lideranças. Compreender suas rivalidades internas e rotas logísticas é o primeiro passo para que as agências de inteligência e o direito internacional consigam asfixiar o motor financeiro que mantém esses impérios invisíveis funcionando paralelamente ao Estado.
Referências e Notas de Observação Externa
A presença geopolítica dessas organizações expande-se por múltiplos continentes. Na Europa Ocidental, a ‘Ndrangheta e a Camorra controlam os portos logísticos. No Leste Europeu e Bálcãs, a Sacra Corona Unita e a ‘Ndrangheta dominam o corredor do Adriático para armas. Na América Latina, a Argentina serve como hub logístico, e na Colômbia, Peru e Bolívia elas adquirem a cocaína diretamente na fonte. No México, a ‘Ndrangheta e o Cartel de Sinaloa atuam em sintonia para o tráfico de drogas sintéticas. Nos Estados Unidos, as Cinco Famílias da Cosa Nostra americana mantêm sua herança histórica. Na África Ocidental, a ‘Ndrangheta utiliza a região como rota de passagem, enquanto na China e Hong Kong ocorre o uso de operadores locais para lavagem de dinheiro via o sistema informal fei ch’ien.
Os registros forenses de cooperação internacional documentam marcos importantes como a prisão de Rocco Morabito em João Pessoa no ano de 2021, sua consequente extradição em 2022 e a megaoperação conjunta envolvendo Eurojust e Europol de dezembro de 2024, que desmantelou uma rota de mais de 1.500 kg de cocaína com 18 prisões executadas em território brasileiro.
Análises forenses de segurança digital, como o caso da infiltração e espionagem da empresa eSurv ligado à ‘Ndrangheta, exemplificam o avanço do crime organizado para ferramentas de monitoramento cibernético e o uso de redes transnacionais de hackers para fraudes financeiras globais.