A Mente Por Trás dos Crimes: Análise Psiquiátrica, Neurológica e de Personalidade das Vítimas e dos Suspeitos

By Marcelo Salamon

22.06.2026

Resumo

Este artigo propõe uma leitura inversa do caso Jack, o Estripador: em vez de partir dos suspeitos para os crimes, parte das cenas dos crimes — das feridas, dos padrões, das escolhas do assassino — e caminha na direção oposta, em busca da mente que os produziu. A partir dessa leitura reversa do modus operandi, são analisados em profundidade os perfis psiquiátricos, neurológicos e de personalidade tanto das vítimas quanto dos principais suspeitos históricos. Traços de temperamento, histórico familiar, heranças genéticas, ambiente social e características individuais são examinados à luz da psiquiatria forense e da criminologia comportamental contemporâneas. O objetivo não é acusar, mas compreender — e ao compreender, aproximar-se da verdade que o século XIX não teve ferramentas para alcançar.

Palavras-chave: perfil psiquiátrico; psicologia forense; criminologia comportamental; personalidade antissocial; esquizofrenia paranoide; transtorno de humor; hereditariedade psiquiátrica; modus operandi; análise de cena do crime

Introdução: Ler o Crime ao Contrário

Há uma maneira convencional de estudar um assassinato em série: identificar suspeitos, levantar provas, cruzar informações. Este artigo propõe o caminho inverso. Em vez de partir de um nome e tentar conectá-lo a um crime, partimos do crime em si — das marcas que o assassino deixou nas cenas, nos corpos, nas escolhas que fez — e caminhamos na direção de quem poderia tê-lo cometido.

Essa abordagem tem nome: criminal profiling reverso, ou análise psicológica dedutiva. Foi sistematizada pelo FBI nas décadas de 1970 e 1980, com agentes como Robert Ressler e John Douglas, e aplicada retrospectivamente a casos históricos, incluindo o de Jack, o Estripador. A premissa é que todo crime é uma extensão da psique de quem o cometeu. O modo como o assassino agiu revela o que sentia, o que fantasiava, o que temia e o que queria. A cena do crime é, antes de mais nada, um documento psicológico.

Mas este artigo vai além do perfil do assassino. Ele também examina, com o mesmo rigor, as mulheres que morreram em Whitechapel no outono de 1888. Por décadas, as vítimas foram tratadas como cenário — referidas como ‘prostitutas’ e descartadas com poucos parágrafos. A realidade é que cada uma delas carregava uma história de perdas, traumas, resistência e colapso que merece ser lida com profundidade. Compreender quem eram — psicologicamente, emocionalmente, socialmente — é também uma forma de fazer justiça.

Parte I — A Cena do Crime Como Documento Psiquiátrico

Antes de examinar qualquer indivíduo, é preciso ler o que as cenas dos crimes revelam sobre a mente do assassino. Cada elemento — o local escolhido, a hora, a velocidade de execução, o que foi feito e o que não foi — carrega informação psicológica.

1.1 Organização e Desorganização: O Assassino Sob Pressão

A criminologia comportamental classifica assassinos em série em dois grandes tipos: organizados e desorganizados. O assassino organizado planeja com antecedência, seleciona vítimas específicas, domina a cena do crime e raramente deixa evidências. O desorganizado age de forma impulsiva, frequentemente em estado de perturbação emocional ou psicótica, e tende a deixar rastros e a atuar em local próximo à sua residência.

Jack, o Estripador apresenta características dos dois tipos — o que é clinicamente significativo. Por um lado, as mortes eram rápidas e eficientes: as vítimas eram silenciadas antes de poder gritar, e nenhuma mostrou sinais de luta intensa. O assassino sabia como matar e fugia com rapidez antes da chegada da polícia. Por outro lado, os crimes ocorreram em locais abertos, nas ruas e becos de Whitechapel, sem qualquer tentativa de ocultar os corpos — um padrão associado a assassinos desorganizados. Essa combinação sugere alguém que, quando em estado controlado, operava com alguma lógica e competência — mas que era impulsionado por uma compulsão que não suportava ser adiada, levando-o a agir em condições de alto risco.

O FBI, em análise retrospectiva do caso, concluiu que o Estripador era provavelmente um assassino predominantemente desorganizado com alguns traços organizados — o que aponta para um quadro de psicose funcional parcial, possivelmente esquizofrenia paranoide em estágio inicial ou moderado, onde o indivíduo ainda mantinha certa capacidade de planejamento básico, mas era dominado por impulsos e fantasias de origem patológica.

1.2 A Assinatura Psicológica: O Que Vai Além do Necessário

In criminologia, há uma distinção fundamental entre modus operandi (o método usado para cometer o crime) e assinatura psicológica (o que o assassino faz além do necessário para matar, revelando suas necessidades emocionais e fantasias internas). A assinatura não muda. É a expressão mais pura da psique do criminoso.

No caso do Estripador, a assinatura era a abertura e a manipulação do abdômen e a remoção de órgãos internos — especificamente o útero e os rins — após a morte das vítimas. Nenhuma das mulheres foi torturada antes de morrer. A morte era rápida — corte profundo na garganta, seccionando artérias e vias respiratórias em questão de segundos. As mutilações ocorriam post-mortem. Isso é clinicamente relevante: o assassino não se excitava com o sofrimento ou com a luta. Excitava-se com os corpos mortos, com a abertura das cavidades, com a posse dos órgãos. Em psiquiatria forense, esse padrão é associado a duas condições: picacismo necrofílico (atração por corpos mortos combinada com manipulação compulsiva das vísceras) e misoginia internalizada de natureza destruidora — não o desejo de dominar a mulher viva, mas o impulso de aniquilá-la como categoria.

A remoção do útero, em especial, é um dado psicanaliticamente carregado. Presente em pelo menos três das cinco vítimas canônicas, a extração desse órgão específico — o símbolo mais direto da feminilidade e da capacidade reprodutiva — sugere que a fúria do assassino não era direcionada a mulheres particulares, mas ao feminino como conceito. Uma ódio abstrato, radical e simbólico, que encontrava expressão no ato de destruir fisicamente aquilo que representava a mulher.

1.3 A Escolha das Vítimas: Oportunidade ou Seleção?

As cinco vítimas canônicas compartilhavam características sociodemográficas marcantes: eram mulheres de meia-idade (entre 25 e 47 anos), pobres, alcoólatras, separadas dos maridos e que recorriam à prostituição para sobrevivir. Durante décadas, essa uniformidade foi interpretada como seleção intencional — o assassino odiava prostitutas especificamente. A historiadora britânica Hallie Rubenhold, no livro The Five (2019), contesta essa leitura: segundo ela, ao menos três das cinco mulheres não eram prostitutas regulares, e sim mulheres em crise que dormiam nas ruas ou em albergues e eram abordadas em momentos de extrema vulnerabilidade.

A distinção é psicologicamente importante. Se o assassino selecionava prostitutas por ódio à sua condição moral, trata-se de um padrão de missão — o tipo de serial killer que acredita estar ‘limpando’ a sociedade de um grupo que considera indesejável. Se, ao contrário, ele selecionava mulheres isoladas, vulneráveis e disponíveis para uma abordagem rápida e sem testemunhas, o perfil muda para um assassino hedonístico por gratificação, impulsionado pela fantasia e pela oportunidade, não por ideologia. A maioria dos especialistas contemporâneos inclina-se para essa segunda interpretação.

Parte II — As Vítimas: Quem Eram Antes das Cenas do Crime

Reduzir as vítimas do Estripador à condição de ‘prostitutas de Whitechapel’ é um erro histórico e uma violência simbólica que persiste há mais de 130 anos. Cada uma delas teve uma vida anterior à miséria — e a trajetória que as levou às ruas de Whitechapel é, em si mesma, um retrato da crueldade da era vitoriana com as mulheres das classes baixas.

2.1 Mary Ann ‘Polly’ Nichols — A Primeira

  • Perfil de vida e trajetória psicossocial: Mary Ann Walker nasceu em 1845 em Londres. Filha de um ferreiro, cresceu em ambiente de trabalho manual e relativa estabilidade. Em 1864, casou-se com William Nichols, impressor, com quem teve cinco filhos. Por décadas, foi esposa e mãe — uma mulher da classe trabalhadora vivendo dentro dos padrões esperados pela sociedade vitoriana. O colapso começou com o alcoolismo. As fontes divergem sobre o que veio primeiro — se a dependência do álcool precedeu ou causou a desestruturação do casamento —, mas o resultado foi o mesmo: a separação do marido por volta de 1880, a perda progressiva da guarda dos filhos e a entrada no ciclo dos albergues coletivos e da prostituição ocasional para pagar o alojamento.
  • Análise psiquiátrica e temperamento: O perfil psicológico que emerge das fontes históricas é o de uma mulher com transtorno por uso de álcool grave — classificado atualmente no DSM-5 como dependência de substância com impacto funcional severo. Testemunhos da época a descrevem como ‘alegre quando sóbria’, o que sugere uma personalidade de base sociável e adaptável, não intrinsecamente disfuncional. O alcoolismo, nesse contexto, funciona clinicamente como automedicação: uma resposta a perdas acumuladas (casamento, filhos, posição social) em um ambiente que não oferecia nenhum suporte emocional ou psiquiátrico para mulheres da sua condição. Na noite de sua morte, Polly havia sido expulsa de um albergue por não ter os quatro pence do alojamento. Disse à amiga que iria ‘conseguir o dinheiro de alguma forma’. Saiu sozinha na madrugada. Era vulnerável, estava provavelmente alcoolizada e não tinha para onde ir.

2.2 Annie ‘Dark Annie’ Chapman — A Segunda

  • Perfil de vida e trajetória psicossocial: Annie Smith nasceu em 1841. Casou-se com John Chapman, cocheiro de um cavalheiro, com quem teve três filhos — um deles com deficiência congênita, outro que morreu na infância, e uma filha que foi enviada a um instituto de caridade. A perda dos filhos, combinada com o alcoolismo crescente, destruiu o casamento. Após a separação, por volta de 1884, John Chapman enviava-lhe uma pensão semanal de dez xelins — quantia irrisória que mal cobria sua sobrevivência. Quando Chapman morreu, em 1886, a pensão cessou. Annie afundou na miséria de Whitechapel.
  • Análise psiquiátrica e temperamento: Registros históricos apontam Annie como uma mulher que tentou resistir: frequentou um centro de reabilitação para dependentes de álcool, fazia crochê e vendia flores para tentar sobreviver sem recorrer à prostituição. Esse padrão é clinicamente reconhecível como o de alguém com capacidade de insight — ela sabia que tinha um problema e tentou enfrentá-lo —, mas sem rede de suporte social, econômico ou terapêutico suficiente para sustentar a recuperação. Na véspera de sua morte, disse à amiga Amelia Palmer que estava ‘doente demais para trabalhar’, mas que precisava do dinheiro do alojamento. A frase encapsula sua condição: doença crônica (possivelmente tuberculose, além do alcoolismo), exaustão e uma estrutura social que não oferecia qualquer saída digna.

2.3 Elizabeth ‘Long Liz’ Stride — A Terceira

  • Perfil de vida e trajetória psicossocial: Elizabeth Gustafsdotter nasceu em 1843 na Suécia. Emigrou para Londres em 1866, trabalhou como doméstica e casou-se com John Thomas Stride em 1869. A narrativa que ela costumava contar sobre si mesma — de que seu marido e dois de seus filhos teriam morrido no naufrágio do Princess Alice, em 1878 — foi posteriormente desmentida por pesquisadores: John Stride morreu de insuficiência cardíaca em 1884, e não há registros de filhos do casal. Stride inventou e repetiu essa história de tragédia ao longo dos anos, frequentemente para despertar compaixão e obter dinheiro ou alojamento.
  • Análise psiquiátrica e temperamento: A construção de uma narrativa falsa e elaborada sobre a própria vida, mantida de forma consistente ao longo do tempo, é clinicamente relevante. Pode indicar desde uma personalidade com traços histriônicos — que dramatiza e exagera para obter atenção e aprovação — até um mecanismo de enfrentamento dissociativo, no qual a pessoa cria uma identidade alternativa mais coerente com a dor que sente do que com os fatos reais. Pesquisadores modernos especulam também que Stride pode ter desenvolvido comprometimento cognitivo progressivo associado à sífilis — doença prevalente entre as mulheres da região —, o que poderia explicar tanto a confabulação quanto o declínio funcional. Independentemente da etiologia, Stride era uma mulher que vivia às margens da realidade que apresentava ao mundo.

2.4 Catherine ‘Kate’ Eddowes — A Quarta

  • Perfil de vida e trajetória psicossocial: Catherine Eddowes nasceu em 1842 em Wolverhampton, filha de um estanheiro. Depois de crescer em relativa pobreza, trabalhou como gravadora em tinlataria e viveu por anos com Thomas Conway, com quem teve três filhos sem se casar formalmente. A relação com Conway era violenta — fontes indicam que ele a agredia regularmente —, e a separação, por volta de 1880, foi resultado tanto das agressões quanto do crescente alcoolismo de Kate. Nos anos seguintes, viveu com John Kelly, que parecia genuinamente cuidar dela. Na noite de seu assassinato, havia sido detida pela polícia por embriaguez poucas horas antes e liberada da delegacia — por ironia trágica — exatamente para ser morta.
  • Análise psiquiátrica e temperamento: Testemunhos de conhecidos e do próprio companheiro John Kelly descrevem Catherine Eddowes como uma mulher inteligente, viva, com senso de humor e capaz de grande afeição. Era letrada — sabia ler e escrever, o que não era universal entre as mulheres de sua condição —, e tinha habilidades manuais. Seu perfil psicológico sugere uma personalidade resiliente e adaptável que foi progressivamente erodida por uma combinação de violência doméstica (com Conway), dependência química e pobreza estrutural. O histórico de violência na relação anterior é clinicamente significativo: mulheres expostas a relacionamentos abusivos desenvolvem frequentemente traumas complexos que comprometem a autoestima, a capacidade de avaliação de risco e os mecanismos de busca de ajuda.

2.5 Mary Jane Kelly — A Quinta

  • Perfil de vida e trajetória psicossocial: Mary Jane Kelly é a mais enigmática das cinco. Jovem — tinha cerca de 25 anos — e irlandesa de origem, era considerada pelas pessoas do bairro como atraente, animada e dotada de uma voz bonita para cantar. Havia sido casada com um mineiro que morreu num acidente de trabalho, e depois disso entrou no circuito da prostituição em Cardiff, depois em Londres. Vivia com Joseph Barnett, que a amava e tentava sustentá-la para que não precisasse se prostituir. Quando Barnett perdeu o emprego, brigaram e ele se mudou — embora continuasse a visitá-la regularmente.
  • Análise psiquiátrica e temperamento: A história de Kelly contrasta com as das outras vítimas em aspectos importantes: era jovem, não tinha filhos, era descrita como sociável e até alegre — não alguém curvada pelo peso dos anos e das perdas. Isso torna seu perfil psicológico especialmente interessante. A prostituição não parecia, para Kelly, o resultado de um colapso gradual, mas sim uma estratégia de sobrevivência relativamente funcional. Sua dependência do álcool era descrita como moderada, não incapacitante. O fato de ser a única vítima assassinada em local fechado — e de ser a mais jovem e mais saudável das cinco — levou alguns pesquisadores a especular que o assassino a conhecia ou que havia algo de diferente nessa abordagem. A brutalidade extrema das mutilações no corpo de Kelly — substancialmente maior que nas demais vítimas — pode indicar que o assassino se sentiu mais livre pela primeira vez, longe dos riscos de ser surpreendido nas ruas, e deixou aflorar o nível máximo de sua fantasia violenta. Psicologicamente, o último crime tende a ser o mais revelador da psicopatologia subjacente.

Parte III — Os Suspeitos: Análise Psiquiátrica e Neurológica

A análise que se segue não busca provar culpa. Busca compreender. Cada suspeito é examinado a partir de seu histórico de vida, traços de personalidade documentados, ambiente formativo, hereditariedade psiquiátrica e características comportamentais — à luz do que a psiquiatria forense e a neurociência contemporâneas nos permitem inferir.

3.1 Aaron Kosminski — O Psicótico em Declínio

  • Ambiente formativo e hereditariedade: Aaron Kosminski nasceu em 1865 em Kłodawa, no Império Russo (atual Polônia), em família judaica. Seu pai, Abram Józef Kozminski, era alfaiate. Não há registros de histórico psiquiátrico familiar conhecido — o que é clinicamente incomum, dado o quadro grave que Kosminski desenvolveria. Cresceu no contexto dos pogroms — violência antissemita sistemática que atingiu as comunidades judaicas polonesas após o assassinato do Czar Alexandre II em 1881. Com apenas 16 ou 17 anos, Kosminski foi forçado a fugir: ele e sua família emigraram primeiro para a Alemanha, depois para Londres, em 1881 ou 1882. Esse contexto é neurologicamente e psicologicamente relevante. A exposição a violência extrema na adolescência — período crítico de desenvolvimento cerebral, especialmente do córtex pré-frontal e do sistema límbico — é um factor de risco documentado para o desenvolvimento de transtornos psicóticos e de ansiedade crônica. A estresse traumático persistente altera a produção de cortisol, modifica a estrutura do hipocampo e pode precipitar episódios psicóticos em indivíduos com predisposição biológica.
  • Quadro psiquiátrico documentado: Os registros dos asilos onde Kosminski foi internado — Colney Hatch Lunatic Asylum (1891) e depois Leavesden Asylum (1894 até sua morte em 1919) — são excepcionalmente detalhados para o padrão da época e constituem o conjunto de dados psiquiátricos mais rico disponível sobre qualquer suspeito do caso. O diagnóstico retrospectivo, realizado por psiquiatras modernos com base nessas anotações, é consistente: esquizofrenia paranoide. Os sintomas documentados incluem: alucinações auditivas persistentes — os registros indicam que Kosminski ‘é guiado por um instinto que informa sua mente e controla todos os seus movimentos’; delírios de perseguição e envenenamento — recusava qualquer alimento preparado por outras pessoas, preferindo comer restos encontrados no chão; comportamento de auto-negligência extrema — recusava-se a lavar-se ou banhar-se; episódios de violência — ameaçou a irmã com uma faca; e estado de emaciação progressiva — seu peso mínimo registrado foi de aproximadamente 45 quilos, consequência da recusa alimentar.
  • Traços de personalidade e temperamento: O que os registros revelam, além do quadro psicótico, é um indivíduo marcado por misoginia explícita e documentada, tendências homicidas registradas pela polícia, isolamento social severo e ausência de vínculos afetivos estáveis. O ódio às mulheres — especialmente às prostitutas — era mencionado nas notas do inspetor-chefe Macnaghten e nos registros do asilo. Kosminski nunca trabalhou de forma estável, mesmo antes da internação. Vivia dependente de irmãos e cunhados, numa posição de subordinação permanente que, em combinação com a psicose, pode ter alimentado ressentimento intenso. O debate psiquiátrico moderno sobre Kosminski como suspeito é, em si mesmo, revelador. A psiquiatra forense Dr. Tristin Engels, em análise publicada em 2026, argumenta que o quadro de esquizofrenia paranoide avançada descrito nos registros do asilo é incompatível com a capacidade de planear e executar os crimes — que exigiam velocidade, orientação espacial noturna, discrição e controle emocional. Por outro lado, pesquisadores como Jari Louhelainen contra-argumentam que os sintomas mais graves de Kosminski surgiram após 1891 — e que em 1888 ele pode ter estado num estágio mais precoce da doença, com funcionamento relativamente maior e a psicose ainda não plenamente instalada. A questão permanece em aberto.

3.2 Montague John Druitt — A Herança da Dor

  • Ambiente formativo e hereditariedade: Montague John Druitt nasceu em 1857 em Wimborne Minster, Dorset, em família de classe alta. Seu pai, William Druitt, era cirurgião respeitado, juiz de paz e frequentador da Igreja Anglicana local. A família habitava a maior casa da cidade, com estábulos e chalés para empregados — um retrato da estabilidade vitoriana da elite provincial inglesa. Druitt estudou no Winchester College com bolsa de mérito e se formou em Oxford, onde se destacou no críquete e nos debates. A hereditariedade psiquiátrica na família Druitt é o dado mais perturbador e clinicamente mais rico disponível sobre qualquer suspeito do caso. A mãe de Druitt, Ann Druitt (née Harvey), foi internada no Brook Asylum em Clapton em julho de 1888 — exatamente no mesmo período em que os assassinatos começaram —, com diagnóstico de depressão grave e delírios paranoides, incluindo a crença de que estava sendo eletrocutada. Ela havia tentado suicídio com overdose de láudano antes da internação. Morreu no Manor House Asylum em 1890. A avó materna de Druitt havia se suicidado em estado de insanidade. Uma tia materna havia tentado suicídio e também necessitou de internação. A irmã mais velha de Druitt, Georgiana, suicidou-se na velhice jogando-se de uma janela do andar superior de sua casa. Esse padrão familiar é, do ponto de vista da psiquiatria genética, extraordinariamente relevante. Quatro gerações de mulheres na mesma linhagem com suicídio, tentativa de suicídio ou internação psiquiátrica apontam para uma forte carga hereditária de transtorno de humor grave — provavelmente transtorno depressivo maior recorrente ou transtorno bipolar com episódios psicóticos. A herdabilidade do transtorno depressivo maior é estimada entre 37% e 50%; para o transtorno bipolar, entre 60% e 85%.
  • Quadro psiquiátrico inferido e crise terminal: Druitt não tinha histórico psiquiátrico registrado em vida. Era funcional: exercia duas profissões simultaneamente (advocacia e magistério), jogava críquete em alto nível competitivo e mantinha uma vida social ativa. No entanto, a nota de suicídio que deixou endereçada ao irmão William é um documento psiquiátrico de primeira ordem: ‘Desde sexta-feira sinto que vou ser como minha mãe, e a melhor coisa para mí é morrer.’ A frase revela consciência da herança familiar de doença mental, terror ante a perspectiva de sucumbir a ela, e uma lógica racional distorcida de que a morte era preferível à loucura. A cronologia dos eventos de novembro e dezembro de 1888 é clinicamente sugestiva de uma crise depressiva aguda com componente psicótico: demissão abrupta do internato (possivelmente por conduta sexual irregular), mãe internada em asilo, pai morto três anos antes, isolamento crescente. O desaparecimento em início de dezembro, a escolha de atirar-se ao Tâmisa com pedras nos bolsos — garantindo que o corpo afundasse — e o estado avançado de decomposição quando encontrado em 31 de dezembro indicam que Druitt levou dias ou semanas para morrer, possivelmente em estado dissociativo profundo.
  • Traços de personalidade e temperamento: Druitt era descrito como inteligente, sociável no ambiente do críquete, competente profissionalmente e sem registros de violência. Não há nenhum relato de comportamento agressivo em vida. Sua orientação sexual é debatida: nunca teve relacionamentos femininos documentados, e alguns pesquisadores especulam que a demissão da escola pode ter sido por conduta homossexual com alunos — na era vitoriana, crime punível por prisão. Se essa hipótese for correta, Druitt vivia sob pressão constante de uma identidade que a sociedade criminalizava, sem nenhum espaço de expressão ou apoio. Esse tipo de supressão crônica de identidade é um fator de risco documentado para transtornos depressivos e comportamentos de risco. O perfil que emerge é o de um homem inteligente, funcionalmente competente na superfície, mas carregando internamente uma herança familiar de transtorno de humor grave e uma crise de identidade não resolvida — uma combinação que, em condições de ruptura extrema (demissão, mãe internada), poderia resultar em colapso psíquico súbito e ação impulsiva.

3.3 Sir William Gull — O Médico Controlado

  • Perfil psiquiátrico e neurológico: Sir William Gull (1816–1890) era um dos médicos mais respeitados da Inglaterra vitoriana. Filho de família humilde — seu pai era barqueiro —, ascendeu socialmente por talento intelectual puro, tornando-se médico pessoal da Rainha Vitória. Era conhecido por frieza emocional, disciplina extrema e uma capacidade de dissociação afetiva que seus contemporâneos atribuíam ao profissionalismo, mas que a psicologia moderna reconhece como traço de personalidade. Em 1887, Gull sofreu um AVC que o deixou temporariamente paralisado e afásico. Recuperou-se parcialmente, mas continuou a ter episódios neurológicos. A teoria maçônica que o coloca como executor dos assassinatos esbarra num dado neurológico difícil de contornar: em 1888, Gull tinha 71 anos e acabara de se recuperar de um acidente vascular cerebral grave. A força física necessária para imobilizar mulheres adultas, realizar incisões com precisão e fugir das cenas dos crimes em questão de minutos é incompatível com o estado físico e neurológico de um septuagenário pós-AVC. Isso não elimina a possibilidade de participação intelectual ou de coordenação de uma conspiração — mas torna sua atuação direta como o homem com o bisturi clinicamente improvável.

3.4 Walter Sickert — O Artista e o Duplo

  • Perfil psiquiátrico e temperamento: Walter Sickert (1860–1942) é, entre todos os suspeitos, o que apresenta o perfil psicológico mais rico em termos de material documentado. Era filho de pintor dinamarquês, nasceu na Alemanha e cresceu numa família de artistas. Desde a infância, foi submetido a múltiplas cirurgias em seu pênis por uma deformidade congênita — fístula urinária —, o que, segundo Patricia Cornwell e outros pesquisadores, teria gerado trauma sexual precoce e profundo ressentimento em relação ao próprio corpo. Sickert era conhecido por uma personalidade extremamente cambiante: encantador e socialmente brilhante em público, retraído e sombrio em privado. Era obcecado por temas escuros e sórdidos em sua pintura — quartos de aluguel baratos, prostitutas, cenas de interiores com a luz da morte. Suas obras incluem uma série chamada The Camden Town Murder, inspirada em um assassinato real de uma prostituta em 1907. A obsessão pelo tema é documentada, mas obsessão não é culpa — artistas com temas sombrios não são, por definição, criminosos. O que a análise psicológica pode afirmar é que Sickert era uma personalidade com traços de dissociação: capaz de apresentar faces radicalmente diferentes ao mundo, com uma vida interna que não correspondia à aparência social. Esse traço é compatível com uma gama enorme de perfis — da genialidade artística ao sociopata funcional.

3.5 Charles Lechmere — O Suspeito Invisível

  • Perfil psiquiátrico inferido: Charles Allen Lechmere é o suspeito mais opaco em termos de material psicológico disponível — o que é, em si mesmo, clinicamente sugestivo. Enquanto outros suspeitos deixaram registros de instabilidade, crise ou excentricidade, Lechmere era aparentemente um homem comum: empregado estável como cocheiro de entregas, casado, pai de família. Essa normalidade funcional é, do ponto de vista do criminal profiling, totalmente compatível com o perfil do assassino em série de tipo organizado — aquele que mantém uma vida social e profissional aparentemente normal enquanto compartimenta os crimes numa dimensão separada e oculta da identidade. A mentira documentada que Lechmere contou à polícia — usar o sobrenome do padrasto em vez do próprio ao depor sobre o corpo de Nichols — é clinicamente relevante. Mentir a autoridades numa situação em que a maioria das pessoas estaria em estado de choque é comportamento associado a personalidades com baixa reatividade emocional, alta capacidade de controle de resposta e tendências antissociais. Não prova culpa. Mas é um sinal.

3.6 Dr. Francis Tumblety — O Narcisista Misógino

  • Perfil psiquiátrico e temperamento: Francis Tumblety era, sob quase todos os critérios clínicos disponíveis, um narcisista com traços sociopatas. Autodenominava-se médico sem ter qualquer formação documentada; usava títulos e uniformes militares falsos; movia-se entre cidades e países sempre que as autoridades começavam a investigá-lo; e mantinha uma fachada de grandiosidade que impressionava à primeira vista mas desmoronava sob qualquer exame mais próximo. A coleção de úteros humanos que exibia orgulhosamente a convidados é o dado mais perturbador: não era curiosidade científica — era exibição de troféus. Em psiquiatria forense, o comportamento de colecionar partes do corpo humano como objetos de orgulho é associado a dois quadros: personalidade antissocial com traços sádicos e fetichismo necrofílico. Tumblety fugia sempre que era pressionado — o que sugere que, apesar da arrogância externa, operava com consciência de sua própria periculosidade.

Parte IV — O Que as Cenas do Crime Revelam Sobre Quem Poderia Tê-las Criado

Retornando ao ponto de partida — a leitura reversa das cenas do crime — e agora com os perfis psiquiátricos de vítimas e suspeitos em mãos, é possível traçar o perfil integrado do autor desconhecido.

O assassino de Whitechapel era, com alto grau de probabilidade clínica: alguém que vivia na própria região de Whitechapel ou em suas imediações, dado o conhecimento preciso dos becos, horários e fluxos policiais; capaz de abordar mulheres sozinhas sem despertar alarme imediato — o que indica aparência não ameaçadora, possivelmente voz tranquila e comportamento superficialmente controlado; dominado por uma fantasia misógina intensa e de longa data, centrada na destruição do corpo feminino — especialmente de órgãos reprodutivos; sem motivação sexual convencional: nenhuma das vítimas foi violentada sexualmente, o que aponta para excitação de tipo diferente (picacismo, necrofilia parcial, fetichismo anatômico); e capaz de algum funcionamento social básico, dado que ninguém o reconheceu nas cenas dos crimes.

Em termos diagnósticos contemporâneos, o perfil mais compatível com a totalidade dos dados comportamentais é o de transtorno de personalidade antissocial com componente psicótico parcial ou episódico, comórbido com misoginia de natureza patológica e possível transtorno parafílico (picacismo necrofílico). Isso não corresponde perfeitamente a nenhum dos suspeitos conhecidos — o que pode simplesmente significar que o verdadeiro assassino nunca foi investigado seriamente.

Conclusão

Ao ler o caso Jack, o Estripador de trás para a frente — das cenas dos crimes para as mentes por trás delas —, o que emerge não é uma resposta, mas uma compreensão mais profunda das perguntas. As vítimas não eram apenas nomes numa lista: eram mulheres destruídas por uma sociedade que as invisibilizou em vida e as transformou em mito após a morte. Os suspeitos não eram monstros abstratos: eram homens com histórias, traumas, doenças e vulnerabilidades que a ciência de seu tempo não tinha como nomear.

O alcoolismo de Polly Nichols e Annie Chapman não era fraqueza moral — era resposta a perdas devastadoras sem suporte algum. A esquizofrenia de Kosminski não nasceu do nada — foi cultivada pelo trauma dos pogroms, pela migração forçada e pelo isolamento de uma comunidade imigrante pobre numa metrópole hostil. A depressão de Druitt não era estranheza — era herança, carregada por quatro gerações de mulheres da mesma família. A psicopatia funcional de Lechmere, se real, era invisível exatamente porque ele não parecia diferente de ninguém.

O que a psiquiatria forense nos ensina, ao olhar para Whitechapel, é que a monstruosidade raramente tem a forma que esperamos. Ela cresce em ambientes de violência, pobreza e abandono. Ela se alimenta de traumas não tratados e de identidades suprimidas. E ela escolhe, quase sempre, as vítimas que a sociedade já decidiu não enxergar. Compreender isso não é absolver o assassino. É reconhecer que o caso de Jack, o Estripador não é apenas um mistério criminal — é um diagnóstico social ainda em aberto.

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