Vítimas, Suspeitos, Teses e as Posições dos Grandes Criminologistas- Part I

By Marcelo Salamon

22.06.2026

Resumo

Em 1888, nas ruas lamacentas e mal iluminadas do bairro de Whitechapel, no East End de Londres, uma série de assassinatos brutais chocou o Império Britânico e o mundo. O assassino, que ficou conhecido como Jack, o Estripador (Jack the Ripper), matou ao menos cinco mulheres com requintes de crueldade e precisão cirúrgica — e jamais foi identificado. Mais de 135 anos depois, o caso permanece oficialmente aberto na Scotland Yard. Este artigo reúne o perfil de cada vítima, os laudos periciais da época, os principais suspeitos com suas histórias e motivações, as grandes teses desenvolvidas ao longo de mais de um século de investigação, e as posições dos mais relevantes criminologistas e pesquisadores que se dedicaram ao caso — da era vitoriana até os dias atuais. Um enigma que moldou a criminologia moderna e ainda desafia a ciência.

Palavras-chave: Jack o Estripador; serial killer; criminologia forense; caso não resolvido; medicina forense.

Introdução

O ano é 1888. Londres é a maior cidade do mundo, capital do maior império já visto na história da humanidade. Mas por baixo do brilho da Era Vitoriana existe um submundo de miséria, prostituição e desespero — concentrado especialmente no bairro de Whitechapel, no East End londrino. É nesse cenário que emerge a figura que marcaria para sempre a história do crime: Jack, o Estripador.

Nenhum outro caso criminal gerou tanto fascínio, tantas investigações e tantas teorias. Centenas de livros, filmes, séries e estudos acadêmicos foram dedicados ao mistério. E ainda assim, a identidade do assassino permanece uma incógnita. A Scotland Yard classifica o caso como oficialmente não resolvido. Nenhum suspeito jamais foi julgado ou condenado.

O nome “Jack the Ripper” surgiu de uma carta anônima enviada à polícia em setembro de 1888 — possivelmente fabricada por jornalistas, mas o apelido ficou gravado na memória coletiva da humanidade. Antes disso, o assassino era chamado de “Avental de Couro”, pela descrição de testemunhas. Mais de cem suspeitos foram formalmente investigados ao longo dos anos, e cada geração de criminologistas produziu sua própria tese sobre quem estava por trás dos crimes.

Este artigo se propõe a organizar, de forma sistemática e acessível, o que há de mais sólido sobre o caso: a vida e a morte de cada vítima, os resultados das perícias da época, o perfil dos suspeitos mais sérios, as principais teses elaboradas por investigadores e pesquisadores — da época vitoriana até as análises genéticas do século XXI — e as posições dos maiores especialistas mundiais que se debruçaram sobre este enigma.

Whitechapel, 1888: O Cenário do Terror

Para compreender os crimes, é essencial entender o ambiente onde ocorreram. Whitechapel, no final do século XIX, era uma das regiões mais miseráveis da Europa. Superlotada por imigrantes irlandeses, judeus do Leste Europeu e trabalhadores sem emprego, o bairro concentrava as mais severas mazelas sociais da era vitoriana: alcoolismo, fome, doenças, violência e prostituição em larga escala.

As ruas eram escuras, mal cuidadas e cheias de becos sem saída. A iluminação a gás estava sendo implantada na cidade, mas Whitechapel permanecia um labirinto noturno. A polícia metropolitana estava em seus primórdios, sem recursos, sem treinamento forense adequado e sem os instrumentos técnicos que a criminologia moderna desenvolveria nas décadas seguintes. Era o terreno ideal para um assassino operar sem ser identificado.

As vítimas do Estripador faziam parte desse submundo invisível ao Estado: mulheres separadas dos maridos, mães que haviam perdido seus filhos ou sido abandonadas por eles, dependentes do álcool e forçadas à prostituição para pagar o aluguel de dormitórios coletivos baratos, chamados “doss houses“. Suas mortes, inicialmente, foram tratadas com pouco rigor — o que contribuiu diretamente para que o assassino nunca fosse capturado.

As Vítimas: O Canônico Cinco

Os especialistas reconhecem cinco vítimas oficiais, conhecidas como “as cinco canônicas”. Todas eram mulheres em situação de extrema vulnerabilidade social. Abaixo, o perfil de vida de cada uma e os resultados dos laudos periciais produzidos à época.

1. Mary Ann ‘Polly’ Nichols — 31 de agosto de 1888

Mary Ann Nichols tinha 42 anos, era separada do marido William Nichols e mãe de cinco filhos. Alcoólatra, morava num dormitório coletivo na rua Thrawl, em Spitalfields, e dependia da prostituição para pagar as poucas moedas do aluguel noturno. Seu corpo foi encontrado por volta das 3h da manhã em Bucks Row, em frente ao cais de Essex. Testemunhas relataram que, de longe, o cadáver foi inicialmente confundido com um marinheiro bêbado.

O médico legista Dr. Rees Ralph Llewellyn constatou cortes profundos no pescoço, feitos da esquerda para a direita, com secção da traqueia, do esôfago e da medula espinal. O abdômen estava completamente aberto, com os entranhas expostas. O laudo declarou expressamente: “as feridas foram feitas por pessoa experiente, que realizou os cortes com absoluta precisão e limpeza”. A cena do crime apresentou pouca quantidade de sangue no pavimento — fato que intrigou os investigadores. Agravando a situação, a polícia lavou o cadáver e o local antes de qualquer exame pericial formal, destruindo evidências valiosas e impossíveis de recuperar.

2. Annie ‘Dark Annie’ Chapman — 8 de setembro de 1888

Annie Chapman tinha 47 anos, era separada e mãe de dois filhos. Conhecida no bairro pelo apelido “Dark Annie”, residia na rua Dorset, em Spitalfields. Seu corpo foi encontrado entre 5h e 6h da manhã em frente ao número 29 da rua Hanbury. O médico legista Dr. George Bagster Phillips descreveu grandes coágulos de sangue ao redor do corpo, sem sinais de luta.

O laudo registrou corte no pescoço da esquerda para a direita, hematomas no lado direito da cabeça e no rosto, língua inchada e abdômen completamente aberto com os intestinos separados dos seus ligamentos. O detalhe mais perturbador foi a remoção cirúrgica do útero, da parte superior da vagina e de uma porção da bexiga — sem deixar fragmentos. O perito concluiu que a remoção foi feita por alguém com “conhecimentos suficientes de anatomia ou de patologia em autopsias para extrair os órgãos pélvicos com um único movimento do bisturi”. O instrumento foi descrito como um bisturi de lâmina delgada e estreita, de seis a oito polegadas de comprimento — nível de precisão incompatível com um assassino amador.

3. Elizabeth ‘Long Liz’ Stride — 30 de setembro de 1888

Elizabeth Stride era sueca, tinha 45 anos, era separada do marido John Stride e mãe de nove filhos. Morava na rua Flower and Dean, em Spitalfields, e era conhecida no bairro como “Long Liz” pela estatura acima da média. Seu corpo foi encontrado entre 0h35 e 0h55 da madrugada em frente ao número 40 da rua Berner, em Whitechapel. Esta foi a terceira vítima confirmada e faz parte da chamada “noite dupla” — dois assassinatos cometidos no mesmo dia, com pouco mais de uma hora de intervalo. No caso de Stride, os peritos observaram mutilações menores que nas vítimas anteriores, o que levou vários pesquisadores a especular que o assassino foi interrompido antes de completar sua obra.

4. Catherine ‘Kate’ Eddowes — 30 de setembro de 1888

Na mesma madrugada em que Stride foi morta, Catherine Eddowes, de 46 anos, foi encontrada brutalmente mutilada na Mitre Square, no bairro de Aldgate. Separada do marido Thomas Conway e mãe de três filhos, Eddowes havia sido detida horas antes por embriaguez e liberada pela polícia pouco antes do crime. Seu corpo apresentava as mutilações mais extensas da série até então: parte do rosto desfigurada, nariz cortado, orelha seccionada, intestinos expostos e remoção de rim esquerdo e partes do útero.

O xale de Eddowes tornou-se, mais de um século depois, a peça central das investigações genéticas modernas sobre o caso. Em 2014 e 2019, pesquisadores isolaram DNA mitocondrial do tecido manchado com sangue e sêmen, comparando o material com descendentes vivos dos suspeitos — com resultados que reacenderam o debate mundial sobre a identidade do assassino.

5. Mary Jane Kelly — 9 de novembro de 1888

Mary Jane Kelly era a mais jovem das vítimas oficiais, com cerca de 25 anos, irlandesa, e a única assassinada em local fechado — seu próprio quarto no número 13 de Miller’s Court. Isso permitiu ao assassino trabalhar com maior privacidade e tempo prolongado, resultando na mutilação mais brutal de toda a série. O corpo foi encontrado pela manhã completamente desfigurado: rosto destruído além do reconhecimento, seios removidos, parte das coxas cortadas, coração e vísceras expostos sobre a cama e algumas partes dispostas ao redor do corpo. O assassino permaneceu no local por horas.

Após o assassinato de Kelly, os crimes cessaram completamente. Este fato gerou uma das questões mais debatidas do caso: o assassino morreu? Foi preso por outro crime? Parou voluntariamente? Ou simplesmente mudou de cidade ou país?

Os Principais Suspeitos: Perfis, Profissões e Motivações

Aaron Kosminski — O Barbeiro Polonês

Aaron Kosminski nasceu na Polônia in 1865 e emigrou para Londres na década de 1880, durante uma grande onda de imigração judaica do Leste Europeu. Trabalhava como barbeiro em Whitechapel, embora estivesse desempregado há anos na época dos crimes. Tinha 23 anos em 1888 e morava com a mãe e as irmãs no mesmo bairro onde ocorreram os assassinatos.

O inspetor-chefe Donald Swanson, que liderou a investigação original, fez referências diretas a Kosminski em suas notas pessoais, descrevendo-o como um homem de “baixa classe judaica polonesa” com histórico de distúrbios mentais e comportamento violento. Kosminski foi internado num asilo psiquiátrico em 1891, poucos anos após os crimes, e lá permaneceu até sua morte em 1919. Testemunhas da época o reconheceram em uma roda de reconhecimento, mas a polícia não prosseguiu com a acusação formal. Ele se enquadra nos perfis de serial killer elaborados por agentes do FBI: ausência de emprego fixo, morte do pai na infância, isolamento social e instabilidade mental grave.

Montague John Druitt — O Advogado de Oxford

Montague John Druitt nasceu em 15 de agosto de 1857 em Wimborne, Dorset, em família de classe média-alta. Filho de cirurgião, estudou no Winchester College e se formou pela Universidade de Oxford. Era advogado, professor em internato e jogador de críquete de destaque, tendo atuado ao lado de figuras importantes do esporte inglês da época, como Lord Harris e Francis Lacey. Apresentava histórico documentado de instabilidade mental, e membros de sua própria família acreditavam que ele sofria de transtorno psíquico grave.

Em novembro de 1888, Druitt foi demitido do internato onde trabalhava, por razões que permanecem desconhecidas. Em 31 de dezembro do mesmo ano, seu corpo foi retirado do rio Tâmisa em estado avançado de decomposição — poucos dias após o último assassinato atribuído ao Estripador. O chefe de polícia da Scotland Yard, Sir Melville Macnaghten, mencionou Druitt como suspeito de primeira categoria em suas notas confidenciais, afirmando que era “sexualmente insano” e que sua própria família o considerava culpado dos crimes. O timing do suicídio — imediatamente após o último crime — é, para muitos pesquisadores, a evidência circunstancial mais relevante de toda a investigação.

Sir William Gull e a Teoria Maçônica

Sir William Gull (1816–1890) foi médico pessoal da Rainha Vitória e um dos nomes mais respeitados da medicina britânica de seu tempo. Era membro comprovado da Maçonaria. Segundo a teoria elaborada pelo jornalista Stephen Knight em seu livro de 1976 Jack the Ripper: The Final Solution, Gull teria sido o executor dos assassinatos a mando do alto escalão do governo britânico, com o objetivo de encobrir um escândalo da família real.

O enredo central gira em torno do Príncipe Albert Victor, Duque de Clarence e Avondale — neto da Rainha Vitória e segundo na linha de sucessão ao trono —, que teria se casado secretamente com uma jovem operária católica de Whitechapel. As vítimas do Estripador seriam prostitutas que sabiam do casamento e tentaram chantagear a Coroa. Para silenciá-las, o Primeiro-Ministro Lord Salisbury teria ordenado os assassinatos. As mutilações seguiriam um ritual maçônico ligado ao assassinato de Hiram Abiff, arquiteto lendário do Templo de Salomão. A comunidade acadêmica rejeita amplamente a tese: a principal fonte de Knight, um homem chamado Joseph Gorman, retratou publicamente sua história, admitindo que havia inventado tudo. Ainda assim, a teoria inspirou o romance gráfico Do Inferno de Alan Moore e o filme homônimo de 2001, tornando-se parte permanente da cultura popular.

Walter Sickert — O Pintor Impressionista

Walter Sickert (1860–1942) foi um dos pintores mais importantes do impressionismo britânico. Era filho de dinamarqueses, nasceu na Alemanha e se tornou figura central do mundo artístico londrino do final do século XIX. A teoria de que Sickert era Jack, o Estripador foi popularizada pela escritora norte-americana Patricia Cornwell em seu livro Portrait of a Killer: Jack the Ripper – Case Closed (2002), no qual ela investiu mais de seis milhões de dólares em investigações privadas, incluindo testes de DNA em cartas supostamente escritas pelo Estripador. A hipótese central é que Sickert tinha uma deformidade congênita que o tornava incapaz de manter relações sexuais e teria gerado profundo ressentimento contra as mulheres. A esmagadora maioria dos especialistas rejeita a tese, mas Sickert permanece como nome recorrente nos debates populares sobre o caso.

Charles Lechmere — O Cocheiro Silencioso

Uma das teorias mais recentes foi desenvolvida pelo jornalista sueco Christer Holmgren. Seu suspeito é Charles Allen Lechmere, também conhecido como Charles Cross — o cocheiro que, convencionalmente, era tratado como inocente testemunha que descobriu o corpo de Mary Ann Nichols. Holmgren demonstrou que Lechmere mentiu às autoridades: usou o sobrenome de seu padrasto ao depor em vez do próprio nome e omitiu informações cruciais sobre a posição e o estado do cadáver quando o encontrou. As rotas de trabalho diário de Lechmere como entregador da empresa Pickfords o colocam no local e no horário de todos os assassinatos. A teoria tem ganho reconhecimento crescente como uma das mais coerentes em termos de lógica investigativa e evidência circunstancial.

Dr. Francis Tumblety — O Americano Misógino

Francis Tumblety era um charlatão norte-americano de origem irlandesa que se autodenominava médico. Frequentava Whitechapel durante o período dos crimes, tinha profunda misoginia declarada e era conhecido por colecionar úteros humanos — que exibia a convidados em sua residência de Londres. Fugiu para os Estados Unidos logo após o último assassinato, em novembro de 1888, enquanto estava sendo investigado pela polícia londrina. A Scotland Yard chegou a solicitar sua extradição aos Estados Unidos, sem sucesso. Sua coleção macabra e o timing preciso de sua fuga permanecem como elementos perturbadores, mesmo sem prova concreta de culpa.

O Que Dizem os Criminologistas: Posições ao Longo da História

Ao longo de mais de 130 anos, investigadores policiais, criminologistas, peritos forenses e pesquisadores independentes de diferentes épocas e países debruçaram-se sobre o caso e formaram conclusões próprias. Nenhuma é definitiva. Cada geração trouxe novas ferramentas e novas perspectivas — e cada especialista que se aprofundou no caso emergiu com um suspeito diferente.

Sir Melville Macnaghten — Scotland Yard, 1894

O chefe de detetives da Scotland Yard, Sir Melville Macnaghten, produziu em 1894 um memorando confidencial que seria redescoberto décadas depois e se tornaria um dos documentos centrais do caso. No memorando, Macnaghten listou três suspeitos principais: Montague John Druitt, Aaron Kosminski e Michael Ostrog, um ladrão e falsário russo com histórico de distúrbios mentais. Para Macnaghten, Druitt era o mais provável dos três, não apenas por razões investigativas, mas porque sua própria família acreditava que ele era o culpado. O documento, no entanto, continha erros factuais sobre Druitt — como indicar que era médico, quando na verdade era advogado —, o que lançou dúvidas sobre a solidez do julgamento do policial.

John Douglas e Robert Ressler — FBI, Décadas de 1980 e 1990

Os agentes John Douglas e Robert Ressler, fundadores da unidade de Ciências do Comportamento do FBI e pioneiros da técnica de perfil criminal (criminal profiling), analisaram retrospectivamente o caso de Jack, o Estripador e produziram um perfil que mudou a forma como o mundo via o assassino. Para eles, o assassino não deveria ser buscado entre personagens excêntricos da alta sociedade londrina. O verdadeiro Jack seria assustadoramente comum — alguém que circulava por Whitechapel sem despertar suspeitas, provavelmente desempregado ou em ocupação de baixa qualificação, com trauma grave na infância (possivelmente perda ou abandono do pai em tenra idade), historial de isolamento social e transtorno de personalidade antissocial. O perfil se encaixava com precisão em Aaron Kosminski.

Patricia Cornwell — Escritora e Investigadora, 2002

A escritora norte-americana Patricia Cornwell, conhecida mundialmente pela série de romances policiais de Kay Scarpetta, investiu mais de seis milhões de dólares em investigação privada do caso e publicou Portrait of a Killer: Jack the Ripper – Case Closed em 2002. Para Cornwell, o assassino era o pintor Walter Sickert, cujas obras conteriam referências veladas aos crimes. Ela submeteu cartas supostamente escritas pelo Estripador a análises de DNA mitocondrial, encontrando material compatível com amostras atribuídas a Sickert. A grande maioria dos especialistas em Jack the Ripper rejeitou as conclusões de Cornwell, apontando falhas metodológicas, contaminação de amostras e inconsistências históricas. Mesmo assim, o trabalho de Cornwell contribuiu para popularizar o uso de técnicas forenses modernas na investigação de casos históricos.

Russell Edwards e Dr. Jari Louhelainen — 2014 e 2019

O pesquisador britânico Russell Edwards adquiriu em leilão, em 2007, um xale de seda manchado que teria pertencido a Catherine Eddowes. Em parceria com o bioquímico Dr. Jari Louhelainen, da Universidade John Moores de Liverpool, Edwards submeteu o tecido a análises de DNA mitocondrial. Os resultados, publicados inicialmente em 2014 e depois em artigo revisado por pares no Journal of Forensic Sciences em 2019, apontaram correspondência entre o material genético do xale e descendentes vivos de Eddowes e de Aaron Kosminski. Edwards afirmou categoricamente: “Aaron Kosminski é Jack, o Estripador”. Em 2024, novas técnicas foram aplicadas ao mesmo material, reforçando as conclusões anteriores. Críticos, porém, alertam que o xale foi manuseado por colecionadores e exibido em museus ao longo de mais de um século, tornando o risco de contaminação elevado. Alguns geneticistas também questionaram a metodologia e a ausência de sequências completas publicadas.

Christer Holmgren — Jornalista e Pesquisador Sueco, Século XXI

O jornalista e pesquisador sueco Christer Holmgren é o principal defensor da teoria que aponta Charles Lechmere (Charles Cross) como o assassino. Holmgren construiu sua tese a partir de inconsistências no depoimento de Lechmere diante dos investigadores vitorianos: o uso de nome falso ao depor, a omissão de detalhes sobre o estado do cadáver de Nichols e a sobreposição geográfica e temporal entre suas rotas de trabalho e todos os locais e horários dos crimes. A teoria de Holmgren é amplamente discutida na comunidade ripperológica contemporânea e considerada por muitos especialistas como uma das hipóteses mais coerentes disponíveis.

Raúl Osvaldo Torre — Criminologista Argentino, 2021

O professor Raúl Osvaldo Torre, membro fundador da Academia de Ciências Forenses da República Argentina (ACFRA) e autor de obras como Homicidios Seriales e Perfiles Criminales, viajou pessoalmente a Londres para pesquisar o caso in loco. Frequentou o pub The Ten Bells em Whitechapel — o mesmo estabelecimento preservado tal qual estava em 1888, onde as vítimas e seus clientes se reuniam —, consultou documentos originais e publicou seu estudo La Investigación Criminal de Homicidios Seriales: Jack el Destripador pela ACFRA em 2021. A conclusão de Torre vai na mesma direção que a de Macnaghten: o suspeito mais coerente, considerando o conjunto das evidências circunstanciais disponíveis, é Montague John Druitt. Para Torre, a coincidência entre o suicídio de Druitt e o encerramento imediato dos assassinatos, combinada ao relato de que sua própria família o considerava culpado, constitui o conjunto de indícios mais coeso disponível. Torre também abordou em suas aulas e publicações a hipótese, presente no imaginário investigativo argentino, de que Jack teria passado por Buenos Aires.

As Grandes Teses Sobre a Identidade do Assassino

  • Tese do médico ou cirurgião: A precisão das mutilações, a remoção de órgãos internos com cortes únicos e limpos e o uso de instrumentos específicos levaram peritos da época e pesquisadores modernos a concluir que o assassino possuía conhecimento anatômico significativo — compatível com médico, cirurgião, açougueiro ou praticante de anatomia.
  • Tese do serial killer invisível: O perfil elaborado por agentes do FBI como John Douglas e Robert Ressler sugere um indivíduo aparentemente comum, integrado ao ambiente de Whitechapel, que se movia sem despertar suspeitas — provavelmente desempregado, com trauma grave na infância e transtorno de personalidade antissocial.
  • Tese maçônica: Conspiração envolvendo a Família Real britânica, membros da Alta Maçonaria e o médico Sir William Gull para encobrir um casamento secreto do Príncipe Albert Victor. Amplamente rejeitada pelo meio acadêmico, mas extremamente popular na cultura de massa.
  • Tese genética: A análise de DNA mitocondrial do xale de Catherine Eddowes, publicada em periódico revisado por pares em 2019 e reafirmada em 2024, aponta para Aaron Kosminski como o autor dos crimes. Críticos alertam para o risco de contaminação do material após mais de um século de manuseio.
  • Tese da assassina feminina: O livro Jack The Ripper: The Hand Of A Woman, de John Morris, sugere que a assassina foi Lizzie Williams, esposa do médico Sir John Williams, que teria removido os úteros das vítimas movida por inveja e ressentimento pela própria infertilidade.
  • Tese das cartas forjadas: A maior parte dos pesquisadores acredita que as famosas cartas atribuídas ao Estripador — incluindo a que originou o nome ‘Jack the Ripper‘ — foram fabricadas por jornalistas para alimentar o sensacionalismo e aumentar a circulação dos jornais, contaminando a investigação policial.
  • Tese do suspeito passante: Christer Holmgren defende Charles Lechmere como o verdadeiro assassino, baseando-se em mentiras documentadas ao ser interrogado e na sobreposição de suas rotas de trabalho com todos os locais e horários dos crimes.

Por Que o Caso Nunca Foi Resolvido?

A combinação de fatores que impediu a solução do caso é reveladora das limitações tanto da época quanto das instituições envolvidas. As cenas dos crimes foram contaminadas antes de qualquer exame técnico — policiais e curiosos pisaram nos locais, o cadáver de Nichols foi lavado antes da perícia formal e evidências irrecuperáveis foram destruídas. O preconceito social teve papel determinante: as vítimas eram prostitutas pobres, e a polícia vitoriana dedicava atenção mínima a crimes contra mulheres dessa condição social.

A pressão da imprensa sensacionalista forçou investigações precipitadas em direções frequentemente erradas. E, sobretudo, a ciência forense estava em seus primórdios: não havia DNA, não havia perfil criminal estruturado, não havia balística moderna, não havia banco de dados de suspeitos. O caso tornou-se, paradoxalmente, o mais famoso do mundo exatamente por nunca ter sido resolvido — alimentando mais de um século de especulações, teorias e investigações.

Conclusão

Jack, o Estripador é muito mais do que um assassino não identificado. Ele é um espelho da sociedade vitoriana: suas vítimas eram mulheres invisíveis para o Estado, o sistema policial era arcaico e preconceituoso, a imprensa era movida pelo sensacionalismo e as desigualdades sociais criavam o ambiente perfeito para que o horror proliferasse sem punição. Mais de 135 anos depois, o caso permanece sem uma resposta definitiva.

Cada geração de investigadores trouxe novas ferramentas e uma conclusão diferente. Macnaghten apontou Druitt. Os agentes do FBI traçaram um perfil que encaixava em Kosminski. Cornwell gastou uma fortuna para acusar Sickert. Edwards e Louhelainen publicaram análises genéticas que, novamente, voltaram a Kosminski. Holmgren construiu o caso mais silencioso e perturbador, apontando para o cocheiro Lechmere. E Torre, cruzando o Atlântico com o rigor de um criminologista forense, retornou à mesma intuição de Macnaghten — Druitt.

Nenhum deles conseguiu fechar o caso. O que é certo é que Jack, o Estripador foi o primeiro serial killer da era moderna da mídia — e que o terror que espalhou em Whitechapel em 1888 nunca cessou completamente. Ele continua vivo em cada investigação que tentamos conduzir para, enfim, olhar nos olhos do monstro.

Referências

  • CORNWELL, Patricia. Portrait of a Killer: Jack the Ripper – Case Closed. Nova York: Berkley Books, 2003.
  • DOUGLAS, John; OLSHAKER, Mark. The Anatomy of Motive. Nova York: Pocket Books, 2000.
  • EDWARDS, Russell. Identificando Jack, o Estripador. São Paulo: Planeta, 2015.
  • KNIGHT, Stephen. Jack the Ripper: The Final Solution. Londres: Harrap, 1976.
  • LOUHELAINEN, Jari; MILLER, David. Forensic investigation of a shawl linked to the Jack the Ripper murders. Journal of Forensic Sciences, v. 64, n. 6, 2019. DOI: 10.1111/1556-4029.14038.
  • MACNAGHTEN, Melville. Days of My Years. Londres: Edward Arnold, 1914.
  • MOORE, Alan; CAMPBELL, Eddie. Do Inferno. São Paulo: Panini, 2006.
  • SUGDEN, Philip. The Complete History of Jack the Ripper. Londres: Constable & Robinson, 1994.
  • TORRE, Raúl Osvaldo. La Investigación Criminal de Homicidios Seriales: Jack el Destripador. Buenos Aires: Academia de Ciências Forenses de la República Argentina, 2021. Disponível em: https://www.acfra.org.ar
  • WIKIPEDIA. Suspeitos do caso Jack, o Estripador. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Suspeitos_do_caso_Jack,_o_Estripador. Acesso em: jun. 2026.