ANÁLISE FORENSE
By Marcelo Salamon
june 29, 2026.

RESUMO
O incêndio do Edifício Joelma, ocorrido em 1º de fevereiro de 1974 no centro de São Paulo, resultou em 187 vítimas fatais e mais de 300 feridos, configurando-se como o segundo maior incêndio em arranha-céu em número de mortos no mundo, superado apenas pelo colapso das Torres Gêmeas em 2001. O presente artigo analisa o evento sob perspectiva estritamente técnica e pericial, abordando a origem elétrica do sinistro, a dinâmica de propagação térmica e a carga de incêndio do ambiente, bem como os procedimentos e limitações da identificação forense das vítimas, com ênfase nas dificuldades impostas pelas altas temperaturas atingidas — estimadas acima de 900 °C — e na ausência de técnicas de DNA disponíveis à época. Discute-se ainda o impacto técnico-normativo do caso na legislação brasileira de segurança contra incêndio.
Palavras-chave: incêndio forense; identificação de vítimas; antropologia forense; propagação térmica; criminologia.
ABSTRACT
The Joelma Building fire, which occurred on February 1, 1974, in downtown São Paulo, resulted in 187 fatalities and more than 300 injuries, making it the second deadliest high-rise fire in history. This article examines the event from a strictly technical and forensic perspective, addressing the electrical origin of the fire, the dynamics of thermal propagation and fire load, and the procedures and limitations of victim identification — particularly given temperatures exceeding 900 °C and the unavailability of DNA analysis at the time. The normative impact of the disaster on Brazilian fire safety legislation is also discussed.
Keywords: forensic fire investigation; victim identification; forensic anthropology; thermal propagation; criminology.
INTRODUÇÃO
Na manhã de 1º de fevereiro de 1974, às 8h45, o Edifício Joelma — um arranha-céu de 25 andares localizado na Avenida Nove de Julho, no centro de São Paulo — tornou-se o cenário de um dos piores desastres por incêndio em estrutura vertical já registrados no mundo. Ao final do dia, 187 pessoas haviam perdido a vida e mais de 300 encontravam-se feridas. Do total de ocupantes do edifício, estimado em aproximadamente 756 pessoas no momento do sinistro, a tragédia vitimou cerca de 25% deles em poucas horas.
Diferentemente da cobertura jornalística convencional, que tende a privilegiar os aspectos dramáticos do evento, o presente artigo propõe uma leitura técnico-científica do caso: a cadeia causal do incêndio, os mecanismos físicos de propagação das chamas, o comportamento estrutural do edifício sob ação térmica e, sobretudo, os procedimentos forenses empregados na identificação das vítimas — procedimentos esses duramente limitados pelas condições do sinistro e pelo estado tecnológico da perícia criminal brasileira em meados da década de 1970.
ORIGEM E CAUSA DO INCÊNDIO: ANÁLISE PERICIAL
O foco primário
O laudo pericial produzido pelo Instituto de Polícia Técnica de São Paulo em 1974 identificou o foco primário do incêndio em um aparelho de ar-condicionado localizado no 12º andar do edifício, na torre voltada para a Avenida Nove de Julho. A causa foi um curto-circuito elétrico decorrente de falha grave na instalação. Os cabos de alimentação dos aparelhos de ar-condicionado eram passados para o interior do edifício através de furos nas janelas. Com o tempo, a ação mecânica e a exposição às intempéries degradaram o isolamento dos fios, deixando condutores encapados em contato direto com superfícies e entre si.
O laudo pericial foi categórico ao afirmar que as instalações elétricas do Joelma eram “precárias e sobrecarregadas”, com “fiações desencapadas, desgastadas e não embutidas nas paredes”. A conclusão técnica resumiu-se numa frase que se tornaria emblemática: “Tudo favorecia o desastre, bastava jogar um fósforo.” Cinco pessoas foram posteriormente condenadas pela 3ª Vara Criminal de São Paulo em 1975, entre elas um engenheiro da Crefisul e responsáveis pela manutenção elétrica, por omissão, negligência e imperícia.
Falhas sistêmicas concorrentes
A investigação identificou ainda uma série de não-conformidades estruturais que, em conjunto, potencializaram o sinistro: ausência total de portas corta-fogo nas escadarias; registros dos hidrantes internos fechados, apesar de o reservatório conter 29.000 litros de água; inexistência de brigada de incêndio treinada; ausência de plano de evacuação; e elevadores sem dispositivo de bloqueio automático em caso de sinistro. Esses fatores, analisados pericialmente como causas concorrentes, demonstraram que o sinistro não foi um evento imprevisível, mas o resultado de uma acumulação sistêmica de negligências.
DINÂMICA DE PROPAGAÇÃO TÉRMICA E CARGA DE INCÊNDIO
Carga de incêndio e materiais combustíveis
A velocidade de propagação do fogo no Joelma só pode ser compreendida à luz da análise da carga de incêndio do ambiente. Os andares destinados a escritórios — do 12º ao 25º — apresentavam densidade combustível extremamente alta: divisórias de madeira, pisos totalmente acarpetados, cortinas de tecido, móveis de madeira maciça, forros de fibra sintética e papelaria em abundância. Havia ainda botijões de gás nas copas e cozinhas dos escritórios, que explodiram durante o incêndio, incrementando a energia liberada e dispersando materiais incendiados para outros andares.
Em termos de engenharia de incêndio, a carga de incêndio específica do ambiente era excepcionalmente elevada para um edifício comercial daquela época. A combinação de materiais lignocelulósicos (madeira, papel, tecidos naturais) com polímeros sintéticos (fibras artificiais dos forros e carpetes) produziu uma combustão com alta liberação de calor e geração intensa de fumaça tóxica contendo monóxido de carbono, cianeto de hidrogênio e outros produtos de pirólise.
Velocidade e padrão de propagação
O fogo se alastrou com velocidade extraordinária. Em menos de cinco minutos após a ignição, a fumaça densa já impossibilitava o deslocamento pelas escadarias — localizadas no núcleo central do edifício, sem pressurização ou compartimentação —, condenando os ocupantes dos andares superiores. Às 9h10, quando os primeiros bombeiros chegaram ao local, as chamas já haviam atingido o 20º andar, o que representa uma propagação vertical de oito andares em aproximadamente 25 minutos.
A propagação seguiu o padrão clássico de incêndio em estrutura vertical sem compartimentação: as chamas e os gases quentes ascenderam pelo efeito chaminé (stack effect), amplificado pelo fato de o 12º andar estar posicionado exatamente no meio da estrutura. O vento forte que atingia São Paulo naquela manhã funcionou como elemento acelerador adicional, especialmente nas fachadas externas onde labaredas avançavam de um andar para o seguinte pelas janelas abertas. No total, 14 dos 25 andares foram destruídos pelo fogo. Os sete primeiros andares de garagem, separados da torre de escritórios por uma estrutura quase independente, não foram atingidos.
Temperaturas atingidas
As temperaturas internas atingidas durante o incêndio foram objeto de avaliação técnica posterior. O secretário municipal Werner Zalouf declarou que as temperaturas superaram 900 °C em determinados pontos, com base nos padrões de destruição observados nos restos mortais e nas estruturas. Esse valor é consistente com o que a engenharia de incêndio denomina “flashover” — a transição para a fase de incêndio plenamente desenvolvido, na qual todos os materiais combustíveis do ambiente entram em ignição simultaneamente. Acima de 800 °C, o concreto armado sofre degradação estrutural significativa, e os metais como alumínio e cobre entram em fusão parcial — padrões observados nos escombros.
O telhado do edifício, para onde muitos ocupantes fugiram na esperança de resgate aéreo, registrava temperatura superior a 100 °C quando as equipes de socorro lá chegaram — temperatura suficiente para causar queimaduras por contato e inviabilizar permanência prolongada sem equipamentos de proteção individual.
INVESTIGAÇÃO FORENSE: IDENTIFICAÇÃO DAS VÍTIMAS
Condições dos restos mortais
A identificação das vítimas do Edifício Joelma representou um dos maiores desafios forenses da história criminal brasileira até aquele momento. As altas temperaturas atingidas produzir foram restos mortais em diferentes estágios de carbonização, desde corpos com queimaduras extensas mas mantendo características morfológicas reconhecíveis, até restos completamente carbonizados onde restavam apenas fragmentos ósseos. A ciência forense atual categoriza os ossos submetidos a altas temperaturas em estágios progressivos: bem preservados, semi-queimados, queimados negros, queimados cinza-azulados e queimados cinza-azulados-brancos — cada estágio correspondendo a temperaturas crescentes e graus decrescentes de recuperação de DNA.
Trinta vítimas que permaneceram no interior do prédio não puderam ser identificadas pelos métodos então disponíveis. Treze corpos — notabilizados historicamente como “As Treze Almas” — foram encontrados carbonizados no interior de um dos elevadores do edifício e sepultados sem identificação no Cemitério São Pedro, na Vila Alpina. Dos 13 indivíduos, 11 morreram carbonizados e dois por politraumatismo. A impossibilidade de identificação foi consequência direta da destruição completa das características físicas externas e da inexistência de análise de DNA no arsenal pericial brasileiro da época.
Métodos de identificação utilizados
Frente às limitações tecnológicas de 1974, o IML (Instituto Médico-Legal) de São Paulo empregou os métodos clássicos de identificação disponíveis: confronto de características físicas gerais (altura, biotipo, cor de pele, cabelos), identificação por reconhecimento visual por familiares, análise de peças de vestuário e objetos pessoais encontrados com os corpos, e comparação de registros odontológicos quando os dentes haviam sido preservados. A identificação odontológica, por ser baseada em tecido mineralizado de alta resistência térmica, constitui o método mais resistente à ação do fogo entre os disponíveis à época.
Cinco familiares desmaiaram durante o processo de reconhecimento no IML, ilustrando as condições em que as identificações foram realizadas. O IML adquiriu 200 caixões e 50 coroas de flores, e as vítimas foram dispostas em quatro salas do instituto. O forte odor de decomposição que já se manifestava na manhã seguinte ao incêndio foi atenuado precariamente com incenso.
Limitações e o que a ciência moderna poderia oferecer
Do ponto de vista da ciência forense contemporânea, os métodos disponíveis em 1974 eram radicalmente insuficientes para a escala do desastre. A análise de DNA para identificação forense foi desenvolvida apenas em 1984, por Alec Jeffreys, e a técnica PCR (reação em cadeia da polimerase), que permite amplificar DNA altamente degradado de ossos queimados, consolidou-se nos anos 1990.
Estudos contemporâneos demonstram que a identificação por análise genética é confiável e reprodutível a partir de fragmentos ósseos em estágio semi-queimado e negro-queimado, com extração de marcadores STR (Short Tandem Repeats) e sequências de DNA mitocondrial. Em ossos no estágio cinza-azulado — correspondente a temperaturas acima de 700 °C — a degradação do DNA é extrema, mas perfis mitocondriais ainda podem ser recuperados em laboratórios especializados.
Caso o incêndio do Joelma ocorresse hoje, as treze vítimas não identificadas seriam submetidas a exame de PMCT (tomografia computadorizada post mortem de corpo inteiro) realizado dentro de 24 horas, seguido de autopsia convencional. Fragmentos ósseos — preferencialmente dentes, por sua maior resistência e isolamento da contaminação ambiental — seriam enviados para extração de DNA com técnicas de recuperação de sequências degradadas. A comparação com amostras de referência de familiares permitiria, com alta probabilidade, a identificação de todos ou quase todos os indivíduos.
INVESTIGAÇÃO DA CENA: DETERMINAÇÃO DA ORIGEM E TRAJETÓRIA DO FOGO
A determinação científica da origem de um incêndio em estrutura vertical segue protocolo metodológico que combina análise de padrões de queima, vetores de propagação, comportamento dos materiais sob ação térmica e reconstrução de eventos. No caso do Joelma, a investigação do local identificou a origem no 12º andar a partir de padrões característicos: o andar de origem apresenta, em general, os danos mais profundos na estrutura horizontal (laje, piso), ao passo que os andares superiores exibem danos progressivamente decrescentes na direção vertical ascendente — padrão inverso ao observado nos andares inferiores ao foco.
Os investigadores documentaram ainda a ausência de marcas de entrada forçada, acelerador de chamas ou qualquer evidência de ignição criminosa intencional. Apesar de agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) terem investigado a possibilidade de atentado — algo consistente com o contexto político da ditadura militar —, a hipótese foi descartada. A investigação convergiu para a conclusão de causa acidental por falha elétrica, com a responsabilidade civil e criminal recaindo sobre a empresa de manutenção elétrica e sobre o próprio banco locatário.
IMPACTO TÉCNICO-NORMATIVO
O incêndio do Joelma expôs de forma brutal a inadequação do Código de Obras do Município de São Paulo então vigente, datado de 1934 — uma época em que a cidade contava com 700.000 habitantes e seus edifícios mais altos não ultrapassavam poucos andares. Seis dias após o sinistro, o Decreto Municipal nº 10.878/1974 foi publicado, introduzindo pela primeira vez exigências obrigatórias de resistência ao fogo por no mínimo quatro horas para todos os elementos estruturais; proibição de coberturas com material combustível; obrigatoriedade de material resistente ao fogo nas escadas; e classificação dos edifícios por tipo de material depositado em seu interior.
No plano técnico mais amplo, o caso Joelma tornou-se referência obrigatória em engenharia de segurança contra incêndio e em formação de peritos criminais especializados em investigação de incêndios. A metodologia de investigação forense de incêndios em estruturas verticais passou a incorporar sistematicamente a análise da carga de incêndio, dos vetores de propagação vertical e da resistência ao fogo dos sistemas construtivos como variáveis centrais na reconstrução do evento.
CONCLUSÃO
O incêndio do Edifício Joelma em 1974 não é apenas uma tragédia humana de grandes proporções — é um caso de referência técnica que permite analisar, em um único evento, os mecanismos de ignição elétrica, a dinâmica de propagação térmica em estruturas verticais de alta carga combustível, os limites da capacidade operacional dos serviços de emergência, e os desafios da identificação forense de vítimas em massa submetidas a altas temperaturas.
Do ponto de vista pericial, o caso evidencia que a identificação confiável de vítimas de grandes incêndios depende de uma combinação de técnicas que, em 1974, simplesmente não existiam no nível necessário. O DNA degradado em fragmentos ósseos queimados, os protocolos de PMCT, as bases de dados odontológicos e a genômica forense representam hoje um arsenal que teria permitido identificar todas ou quase todas as 13 vítimas sepultadas como anônimas no Cemitério São Pedro. A lacuna entre o que era tecnicamente possível in 1974 e o que é possível hoje não é meramente acadêmica: ela representa o custo humano concreto do subdesenvolvimento científico e normativo.
Cinquenta anos após o sinistro, o Edifício Joelma — hoje denominado Edifício Praça da Bandeira — permanece de pé, reformado e em uso. Permanece também como memória técnica indispensável para peritos, engenheiros de segurança e criminologistas forenses que estudam a interface entre falha humana sistêmica, dinâmica física do fogo e resposta pericial em desastres de massa.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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