Uma análise psiquiátrica entre a tênue fronteira do dever, a liderança e o assassinato

By Marcelo Salamon

May 24, 2026.

Resumo

Este artigo examina, sob uma ótica predominantemente psiquiátrica, a natureza da guerra como fenômeno intrínseco à condição humana. Longe de ser uma aberração da civilização, a guerra é entendida aqui como um estado natural da humanidade — inevitável enquanto o ser humano não atingir níveis superiores de consciência coletiva, o que, nas circunstâncias atuais, permanece fora do horizonte possível. O texto analisa a distinção entre psicopatia e dever em contextos de conflito armado, questiona a ética da guerra, investiga os interesses reais que movem os conflitos e examina, à luz da psiquiatria forense e da psicopatologia, o perfil de grandes líderes históricos e contemporâneos. A conclusão aponta para uma perturbadora sobreposição entre o arquétipo do estadista e o do assassino de guerra — diferença que, muitas vezes, reside não na natureza do ato, mas na escala do poder e na narrativa construída pelos vencedores.

Introdução

A guerra é talvez o fenômeno humano mais contraditório e revelador. Ela é, simultaneamente, objeto de glorificação e de horror, de heroísmo e de barbárie. Sociedades erguem monumentos a generais e chefes de Estado que ordenaram a morte de milhões, enquanto os mesmos sistemas julgam em tribunais internacionais soldados que executaram ordens semelhantes em escala menor. Essa contradição não é acidental — ela expõe algo de fundamental sobre como civilizações constroem significado em torno da violência organizada.

Antes de prosseguir, é necessário estabelecer uma premissa central: a guerra não é, por si só, expressão de psicopatia coletiva. Ela é um fenômeno natural, inscrito na história da espécie humana desde suas origens. Enquanto o ser humano não atingir estágios muito mais elevados de organização moral, política e espiritual — o que as condições atuais tornam improvável —, as guerras continuarão existindo e, em certos contextos, serão inevitáveis e mesmo necessárias. O bem precisará combater o mal. Essa distinção, porém, raramente é absoluta: nem toda nação ou líder que representa o bem é completamente bom, nem todo adversário é completamente mau.

Há, entretanto, uma racionalidade de alto nível que permite compreender que o mal praticado contra o mal pode, em certas circunstâncias, resultar no bem. Essa compreensão não está ao alcance do pensamento comum — exige capacidade analítica, distância histórica e coragem intelectual para sustentar paradoxos morais sem cair no cinismo ou na ingenuidade.

A pergunta central deste artigo é, portanto, mais precisa: dentro da guerra — fenômeno natural e por vezes necessário — onde termina o dever e começa a psicopatia? E o que a psiquiatria tem a dizer sobre os perfis dos homens que lideram conflitos?

1. Psicopatia da Guerra: Uma Leitura Psiquiátrica

A psicopatia, na nomenclatura psiquiátrica contemporânea classificada dentro dos transtornos de personalidade antissocial (CID-11: 6D11.2), caracteriza-se por ausência ou grave redução da empatia, comportamento manipulador, frieza afetiva, impulsividade controlada e capacidade de causar dano sem experimentar culpa ou remorso significativos. O psiquiatra canadense Robert Hare, criador da Psychopathy Checklist-Revised (PCL-R), dedicou décadas ao estudo clínico dessas características e observou, de forma perturbadora, que os traços psicopáticos são frequentemente adaptativos em ambientes de alta competição e poder.

A estrutura militar, em sua essência, condiciona o indivíduo a suspender respostas emocionais naturais diante da violência. O treinamento de combate visa sistematicamente reduzir a inibição natural de matar — descrita de forma pioneira pelo psiquiatra militar americano J. Glenn Gray em A Guerra como Experiência Humana (1959) — e substituí-la por reflexos condicionados. A questão que se impõe é: isso é disciplina operacional legítima, ou indução institucionalizada de uma psicopatia funcional e temporária?

A resposta psiquiátrica mais precisa é: depende. Em indivíduos psicologicamente saudáveis, o condicionamento militar produz um estado dissociativo controlado que cessa com o fim do conflito — embora frequentemente deixe sequelas como o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Em indivíduos com traços antissociais preexistentes, o ambiente de guerra pode funcionar como um catalisador que legitima e amplifica esses traços, conferindo-lhes uma roupagem de heroísmo ou sacrifício. É nesse ponto que a guerra revela sua face mais perturbadora: ela cria as condições ideais para que a psicopatia floresça protegida pela bandeira do dever.

2. Psicopatia ou Dever?

A Névoa Moral da Guerra

A distinção entre psicopatia e dever num contexto de guerra é, com frequência, uma questão de perspectiva, de lado e de poder. O soldado que executa civis pode alegar cumprimento de ordens — e esse argumento foi central no Julgamento de Nuremberg (1945-1946), nos processos sobre My Lai (1968) e em Srebrenica (1995). Em todos esses casos, homens comuns — não necessariamente psicopatas clínicos — cometeram atrocidades de escala industrial sob o manto do dever militar.

O psiquiatra e filósofo Karl Jaspers, em A Questão da Culpa Alemã (1946), propôs uma taxonomia sofisticada da culpa que permanece relevante: culpa criminal (atos ilegais), culpa política (responsabilidade coletiva pela ação do Estado), culpa moral (falha pessoal de julgamento) e culpa metafísica (solidariedade com o sofrimento humano). Jaspers argumentou que a grande maioria dos alemães não era psicopata — era moralmente anestesiada, condicionada pela propaganda e pela obediência institucional.

O psiquiatra Erich Fromm, em Anatomia da Destrutividade Humana (1973), distinguiu entre agressividade benigna — adaptativa, defensiva, biologicamente enraizada — e agressividade maligna — destrutiva por prazer, característica da necrofilia psíquica que ele identificava em certos líderes totalitários. Para Fromm, Hitler era um caso clássico de caráter necrofílico: fascinado pela morte, pela destruição e pelo poder absoluto, não como meios para fins políticos, mas como fins em si mesmos.

Essa distinção é fundamental: nem todo general que ordena bombardeios é psicopata. Alguns agem dentro de uma lógica estratégica dolorosa, com plena consciência do custo humano. Outros agem por prazer no poder, indiferença ao sofrimento ou grandiosidade narcísica patológica. Separar esses perfis é o trabalho da psiquiatria forense — e é, politicamente, um trabalho raramente feito sobre os vencedores.

3. Existe Ética na Guerra?

O Direito Internacional Humanitário — as Convenções de Genebra de 1949, o Estatuto de Roma de 1998 e os princípios do Tribunal Penal Internacional — representa a tentativa civilizatória de impor uma ética mínima ao caos dos conflitos armados. Não matar civis deliberadamente, não torturar prisioneiros, não empregar certas armas. São regras que reconhecem a inevitabilidade da guerra, mas procuram conter seus excessos mais bárbaros.

Na prática, a guerra tende a cegar qualquer ética. Os bombardeios de Dresden e Hiroshima, os massacres em Gaza e Mariupol, as limpezas étnicas nos Balcãs — todos ocorreram à luz do dia, frequentemente amparados em justificativas estratégicas ou ideológicas. A ética da guerra existe nos tratados. No campo de batalha, ela costuma ser a primeira baixa.

O psiquiatra Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz e fundador da logoterapia, observou em Em Busca de Sentido (1946) que mesmo em condições de extrema degradação humana, alguns indivíduos mantinham uma liberdade interior inviolável — a capacidade de escolher sua atitude. Esse insight, transposto para o contexto dos combatentes, sugere que a ética individual subsiste mesmo quando a ética institucional colapsa. Há soldados que se recusam a atirar em civis. Há comandantes que protegem prisioneiros. São exceções que a história raramente privilegia, mas que provam que o colapso ético da guerra não é inevitável no nível individual.

A ética da guerra existe, portanto — mas como possibilidade frágil, não como estrutura confiável. E sua preservação depende, em grande medida, do perfil psicológico e moral de quem detém o comando.

4. O Que Está Realmente Por Trás da Guerra?

Guerras raramente são o que parecem ser. Por trás de narrativas de liberdade, segurança nacional, defesa de valores civilizatórios ou proteção de minorias, operam interesses econômicos, geopolíticos e industriais de magnitude considerável. O presidente americano Dwight D. Eisenhower alertou em 1961 para o perigo do “complexo industrial-militar”: a fusão de interesses entre as forças armadas, a indústria de armamentos e o poder político, capaz de gerar uma pressão permanente em favor da guerra como estado de normalidade.

A guerra na Ucrânia (2022) movimentou centenas de bilhões de dólares, reposicionou a OTAN e reconfigurou rotas energéticas. O conflito em Gaza (2023) reacendeu disputas por influência regional. A Segunda Guerra Mundial foi, entre outras coisas, uma reorganização definitiva da hierarquia econômica e política mundial. Isso não significa que todas as guerras sejam apenas pretextos econômicos , mas qualquer análise honesta precisa considerar quem lucra, quem perde e quem controla a narrativa. O dinheiro não apenas financia a guerra; em certos casos, ele a inicia.

5. Grandes Líderes ou Assassinos?

Winston Churchill ordenou o bombardeio estratégico de populações civis. Harry Truman autorizou as bombas atômicas, matando centenas de milhares. Joseph Stalin liquidou milhões de seus próprios cidadãos. Todos figuram na história como estadistas e possuem monumentos. Por outro lado, um miliciano sérvio em Srebrenica foi julgado pelo Tribunal Penal Internacional. A diferença frequentemente não está na natureza do ato — está na escala, no lado vencedor e na narrativa construída depois.

O historiador Howard Zinn argumentou que herói e vilão são construções políticas, não julgamentos morais objetivos. O psiquiatra Robert Jay Lifton demonstrou como médicos participaram de genocídios dentro de sistemas que os legitimavam. O que os diferenciava de criminosos comuns era o aparato institucional envolvente. A pergunta incômoda permanece: o que separa um grande líder de um assassino de guerra?

6. Exemplos Históricos e Contemporâneos

  • 6.1 Segunda Guerra Mundial (1939–1945): Produziu simultaneamente o Holocausto e bombardeios aliados em cidades civis. Nuremberg estabeleceu a responsabilização individual, mas julgou apenas os vencidos. Perfis psicológicos de Hitler apontam para personalidade narcísica, traços paranoides e antissociais, mas sem psicose franca. DOCX+ 2
  • 6.2 Guerras dos Balcãs (1991–2001): O genocídio de Srebrenica, sob o comando de Ratko Mladić, resultou na execução de mais de 8.000 bósnios. O caso é paradigmático por envolver líderes como Radovan Karadžić, um psiquiatra que orquestrou atrocidades sob racionalização ideológica. DOCX+ 1
  • 6.3 Guerra da Ucrânia (2022–presente): Vladimir Putin tem sido analisado por traços de narcisismo maligno e isolamento crescente. O TPI emitiu mandado de prisão contra ele em 2023. A narrativa russa exemplifica o mecanismo de racionalização moral. DOCX+ 2
  • 6.4 Guerra em Gaza (2023–presente): Marcada por intensas violações documentadas e mandados de prisão do TPI contra líderes do Hamas e de Israel (Netanyahu e Gallant). É um caso emblemático de ambiguidade moral onde ambos os lados possuem traumas e legitimidades parciais. DOCX+ 1

7. Perfil Psiquiátrico: Líder de Guerra vs. Criminoso de Guerra

Baseado no trabalho de Robert Hare, Jerrold Post e Robert Jay Lifton:

CaracterísticaLíder de Guerra InstitucionalCriminoso de Guerra
Escala das decisõesNacional ou global; abstrataIndividual ou local; concreta
Legitimidade formalAlta — respaldada pelo EstadoBaixa ou inexistente
Narrativa histórica“Heroica, patriótica, necessária”“Criminosa, bárbara, irracional”
Empatia afetivaSuspensa ou seletiva; instrumentalizadaAusente ou irrelevante
Racionalização moralElaborada, sistêmica, ideológicaSimples, obediência ou ódio
ResponsabilizaçãoRara; protegida pelo poderOcasional; depende do lado
Traço dominanteNarcisismo com grandiosidade adaptativaAntissocial com impulsividade
Consciência do ato“Plena, mas dissociada moralmente”Variável; frequentemente negada

As diferenças são, em grande medida, contextuais e institucionais, não necessariamente psiquiátricas. Ambos operam em sistemas que legitimam a violência; a distinção está em quem conta a história depois. Líderes perigosos frequentemente não são loucos, mas sim “perigosamente sãos”.

Conclusão

A guerra revela que a linha entre dever e psicopatia é tênue. Ela não é uma anomalia, mas o estado mais revelador da humanidade. Em certos contextos, continuará sendo necessária para combater o mal. Reconhecer as nuances desse processo exige uma racionalidade que foge do maniqueísmo fácil. A psiquiatria oferece uma lente para distinguir entre a lógica estratégica racional e a motivação baseada no prazer no poder ou indiferença clínica ao sofrimento. Compreender isso é uma exigência de honestidade intelectual para que a humanidade consiga, talvez, fazer guerras melhores antes de conseguir não fazê-las.

Referências

  • Psiquiatria e Psicopatologia: Hare (1993, 2003), Fromm (1973), Frankl (1946), Lifton (1986), Post (2004, 2007), Redlich (1998), Langer (1972), Jaspers (1946), Gray (1959) . DOCX
  • Direito Internacional: Convenções de Genebra (1949), Estatuto de Roma (1998), Acórdãos do TPIJ (2016, 2017) . DOCX
  • História e Pensamento: Zinn (1980), Eisenhower (1961), Arendt (1963) . DOCX
  • Manuais: DSM-5 (2013), CID-11 (2019). DOCX