By Marcelo Salamon

02 .06. 2026

Área do Conhecimento: Criminologia Forense / Geopolítica Criminal

Palavras-chave: Máfia Albanesa, Clãs Sérvios, Crime Organizado Transnacional, Bálcãs, Tráfico de Entorpecentes, Criminologia Forense.

Introdução

A região dos Bálcãs consolidou-se historicamente como um dos epicentros globais do crime organizado, servindo como uma ponte logística vital entre as rotas de produção do Oriente e os mercados consumidores do Ocidente. Sob a ótica da criminologia forense, o colapso de regimes políticos e os intensos conflitos étnicos da década de 1990 forneceram o terreno ideal para que antigas estruturas paramilitares e guerrilhas se metamorfoseassem em sindicatos puramente criminosos. Este artigo analisa a dinâmica dessas organizações, sua transição de lideranças e o impacto socioeconômico de suas redes globais.

Estruturas das Organizações: Famílias ou Grupos?

O ecossistema criminal nos Bálcãs é híbrido. Coexistem tanto estruturas rigidamente tribais e familiares quanto redes modernas de caráter puramente corporativo e terceirizado.

Máfia Albanesa (“Besa” / Clãs do Norte): Funciona estritamente como clãs familiares baseados em laços de sangue e lealdade absoluta, operando sob o tradicional código de honra conhecido como Kanun. É altamente hermética, o que dificulta infiltrações policiais, e mantém forte atuação na Europa Ocidental, EUA e América Latina. PDF+ 1

  • Líderes e Supostos Líderes: Historicamente associada a famílias como os clãs Kula, Abazi e Berisha. Em investigações transnacionais modernas de tráfico de cocaína, nomes como Dritan Rexhepi (líder do cartel albanês Kompania Bello, que operou redes de dentro de prisões na América do Sul) e Gëzim Çela (ex-oficial de polícia apontado como barão da droga) ganharam enorme notoriedade.
  • Máfia Sérvia (Zemun klan e Surčin klan): Diferente dos albaneses, surgiram como grupos/gangues ramificados do aparato estatal e de forças paramilitares durante as guerras dos anos 90. Eles agem de forma integrada a redes corruptas. PDF
    • Líderes e Supostos Líderes: Os chefes históricos mais notórios foram Željko Ražnatović (conhecido como “Arkan”, comandante paramilitar) e Dušan Spasojević (líder do Zemun klan). Após a reestruturação do crime sérvio, figuras como Luka Bojović e o megatraficante Darko Šarić (conhecido como o “Rei da Cocaína dos Bálcãs”) passaram a centralizar as grandes operações logísticas de exportação de narcóticos.
  • Máfia Montenegrina (Guerra de Clãs): Iniciada em 2015 na cidade de Kotor, a divisão interna gerou duas facções rivais brutais: o Clã Kavač e o Clã Škaljari. Essa disputa de território e poder descentralizou-se, espalhando uma onda de homicídios por encomenda por todo o continente europeu. PDF+ 1
    • Líderes e Supostos Líderes: O Clã Kavač é liderado por Radoje Zvicer (atualmente um dos homens mais procurados da Europa) e Slobodan Kašćelan. O rival Clã Škaljari era liderado por Jovan Vukotić, até o seu assassinato na Turquia em 2022, deixando o comando para lideranças remanescentes e aliadas sob forte sigilo.
  • Grupos Búlgaros e Romenos: Atuam de forma mais corporativa e estruturada, focando em nichos tecnológicos como cibercrime, fraudes financeiras e a facilitação logística de tráfico humano aproveitando o livre acesso ao espaço europeu pela União Europeia. PDF
    • Líderes e Supostos Líderes: Na Bulgária, figuras históricas da transição pós-comunista ligadas a grupos como o multigroup e a VIS/SIC incluíam Iliya Pavlov e Vasil Iliev (ambos assassinados). No cenário contemporâneo de lavagem de capitais e criptoativos, a búlgara Ruja Ignatova (conhecida como a “Cryptoqueen”, fundadora do esquema OneCoin e presente na lista dos mais procurados do FBI) tornou-se o principal símbolo de crimes financeiros globais originados na região.
  • Grupos Kosovares (Ex-UCK e Redes Derivadas): Redes caracterizadas pela forte sobreposição entre lideranças políticas e criminosas, utilizando o território como ponto estratégico de trânsito. PDF
    • Líderes e Supostos Líderes: Relatórios internacionais de inteligência frequentemente apontaram conexões de redes de trânsito ilícito a ex-comandantes do Exército de Libertação do Kosovo (UCK), como Hashim Thaçi (ex-presidente do Kosovo, julgado em Haia por crimes de guerra) e Ramush Haradinaj, cujos clãs familiares estendidos controlavam rotas terrestres estratégicas de contrabando.

Transição de Chefias: Nomes Antigos e Novos

A dinâmica de comando passou por uma clara renovação geracional imposta pela repressão e pela necessidade de modernização tecnológica:

  • Quem permaneceu e se adaptou: Os clãs albaneses mantiveram suas linhagens devido ao isolamento de suas estruturas familiares patriarcais. O Clã Kavač (Montenegro), sob a liderança fugitiva de Radoje Zvicer, profissionalizou-se e digitalizou suas comunicações (utilizando sistemas criptografados como o Sky ECC), tornando-se um dos grupos mais perigosos e modernos do mundo atualmente. PDF+ 1
  • Quem não permaneceu (Metamorfoseados): As lideranças paramilitares sérvios dos anos 90, como o histórico Zemun klan de Dušan Spasojević, foram fragmentadas pelo Estado após o envolvimento no assassinato do primeiro-ministro Zoran Đinđić. As chefias antigas (generais e guerrilheiros de mentalidade puramente militar) deram lugar a jovens operadores focados em criptoativos, lavagem eletrônica de dinheiro e coordenação logística transatlântica profunda. PDF

Relações Internacionais com o Crime Organizado

As organizações balcânicas não atuam de forma isolada, funcionando como parceiras comerciais de grandes cartéis e facções mundiais:

  • Brasil: Mantêm conexões diretas e estreita colaboração com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Operadores enviados pelos clãs dos Bálcãs estabelecem base no estado de São Paulo e utilizam o Porto de Santos como principal hub de saída para o tráfico de cocaína puríssima em larga escala em direção aos portos europeus de Roterdã e Antuérpia. PDF+ 1
  • Estados Unidos: Presença histórica da Máfia Albanesa em atividades de extorsão, tráfico e distribuição, operando de forma independente nas principais metrópoles norte-americanas. PDF
  • Europa e Japão: Cooperação logística e financeira com a ‘Ndrangheta italiana para a distribuição de entorpecentes em solo europeu e uso de redes de cibercrime e lavagem de dinheiro que interligam fraudes virtuais e investimentos imobiliários que tocam as periferias financeiras globais. PDF

Análise de Faturamento Anual Estimado

(Estimativas macroeconômicas baseadas no fluxo transnacional de ativos ilícitos)

  • Clãs Albaneses: Faturamento anual estimado entre $10 bilhões e $15 bilhões, impulsionado pelo controle do mercado de heroína e avanço na cocaína. PDF
  • Redes Sérvias e Montenegrinas (Kavač/Škaljari): Movimentação combinada entre $5 bilhões e $12 bilhões ao ano, sustentada pelo narcotráfico marítimo transatlântico e extorsão comercial. PDF
  • Sindicatos Búlgaros e Romenos: Faturamento de $2 bilhões a $4 bilhões anuais, ancorados no cibercrime internacional e esquemas de fraudes na União Europeia. PDF

Conclusão

A análise criminológica forense revela que o crime organizado nos Bálcãs transcendeu a barreira cultural de gangues locais para se converter em autênticas multinacionais do crime. A transição do modelo de liderança focado na violência militar (da velha guarda de paramilitares) para a gestão de redes complexas conduzida por novos operadores logísticos demonstra que a permanência dessas facções depende de sua plasticidade corporativa. O combate eficaz a essas estruturas exige perícia financeira e cooperação internacional que intercepte suas relações comerciais transatlânticas (como a rota estabelecida com o mercado brasileiro) antes que os ativos sejam totalmente diluídos no mercado formal.

Referências

  • Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). Estudos de Criminologia Transnacional e Rotas do Tráfico. PDF
  • Relatório Europol. Avaliação de Ameaças do Crime Organizado nos Bálcãs (SOCTA). PDF
  • Análise de Geopolítica de Conflitos Étnicos e Redes Criminosas Globais (2026). PDF