História de criminologia forense I

By Salamon, Marcelo

04.05.2026

Resumo

Este tratado acadêmico investiga a metamorfose da criminologia forense, analisando sua transição de uma ciência mecânica — nascida nos sinistros ferroviários canadenses e na proteção laboral do século XIX — para uma ciência de dados e algoritmos. O artigo detalha a contribuição dos grandes expoentes, o impacto das escolas clássicas na formação do nexo causal e a sofisticação das técnicas de perícia em ambientes digitais. Através de uma abordagem multidisciplinar, demonstra-se como a tecnologia forense se consolidou como o pilar de sustentação do Direito moderno, combatendo a impunidade desde o chão de fábrica até as camadas mais profundas da rede.

Palavras-chave: Criminologia Forense; Direito do Trabalho; Engenharia Forense; Ciber-Criminologia; Cadeia de Custódia Digital; Evolução Tecnológica.


Introdução: A Epistemologia da Prova Técnica

A evolução da criminologia forense não é linear, mas sim uma resposta adaptativa às revoluções tecnológicas da humanidade. O Direito, enquanto ciência social, sempre dependeu da técnica para validar a aplicação da norma. Esta introdução postula que o nascimento da perícia estruturada ocorreu quando o “testemunho visual” se provou insuficiente diante da complexidade das máquinas, forçando a integração de disciplinas como a física, a química e, posteriormente, a computação quântica e forense no seio do judiciário.


Capítulo I: O Período Formativo e o Determinismo (Séc. XIX)

O século XIX marcou a transição da justiça baseada na confissão para a justiça baseada na evidência biológica e social.

  • Cesare Lombroso (1835-1909) e a Biotipologia: Como médico militar, Lombroso aplicou o método clínico a milhares de prisioneiros. Sua importância reside na tentativa de transformar a criminologia em uma ciência mensurável através da antropometria. Embora seu “determinismo biológico” tenha sofrido críticas, ele fundou o método de observação sistemática do infrator.
  • Enrico Ferri (1856-1929) e os Fatores Exógenos: Ferri desafiou o foco puramente biológico, introduzindo a importância das condições sociais e econômicas. Para o Direito da época, isso foi revolucionário, pois permitiu ao Estado pensar em prevenção e não apenas em punição.

Capítulo II: A Gênese Técnica no Direito do Trabalho e a Era Ferroviária

Este período é o marco zero da perícia técnica moderna, onde a responsabilidade civil e criminal foi testada pela primeira vez contra a falha estrutural em massa.

  • O Desastre de Desjardins Canal (Canadá, 1857) e a Perícia de Materiais: Este caso é emblemático. A queda de um trem após a quebra de um eixo de roda forçou os tribunais a buscarem engenheiros para determinar a microestrutura do metal. A importância técnica aqui foi a criação do conceito de nexo de causalidade mecânica. No Direito do Trabalho, isso forçou a inversão do ônus da prova em muitos contextos, protegendo o trabalhador contra a negligência técnica das grandes corporações ferroviárias.
  • Hans Gross (1847-1915): Considerado o “Pai da Criminalística”, Gross publicou o Handbuch für Untersuchungsrichter (Manual para Juízes de Instrução). Ele unificou o conhecimento técnico, defendendo que o juiz deve entender de química e física para não ser ludibriado.

Capítulo III: A Escola Comportamental e o Perfilamento (Séc. XX)

Com a consolidação da perícia física, o século XX focou na “perícia da mente” como ferramenta de investigação ativa.

  • John Douglas e Robert Ressler (Anos 70 – Quantico, FBI): No contexto da ascensão dos serial killers nos EUA, estes agentes desenvolveram o Criminal Investigative Analysis (CIA). A técnica consistia em analisar a vitimologia e a cena do crime para construir um “perfil psicossocial” do autor. A importância desta técnica era operacional: permitir que a polícia priorizasse suspeitos em casos onde não havia ligação direta entre vítima e agressor.

Capítulo IV: Psicopatologia Forense e a Imputabilidade Técnica

O refinamento da neurociência aplicada ao Direito Penal e à execução das penas.

  • Robert Hare e o PCL-R (1991): O Dr. Hare forneceu o “padrão ouro” para o diagnóstico da psicopatia. A técnica técnica envolve uma entrevista semiestruturada e a análise de prontuários criminais. Por que foi importante? Porque permitiu ao sistema carcerário gerenciar o risco de reincidência de forma estatística, influenciando as decisões de progressão de regime em diversos países.

Capítulo V: Criminologia Ambiental e a Microgeografia (Anos 80 – Hoje)

O estudo de como o desenho das cidades pode facilitar ou impedir o fenômeno delitivo.

  • Kim Rossmo e o Perfilamento Geográfico: Rossmo, um ex-policial de Vancouver, desenvolveu o algoritmo CGT (Criminal Geographic Targeting). A técnica utiliza a matemática para determinar a zona de residência de um criminoso com base na dispersão espacial dos seus crimes. A importância reside na eficiência logística do policiamento e na compreensão da “ecologia do crime”.

Capítulo VI: A Quarta Geração e a Ciber-Criminologia Forense

Este é o ápice da tecnologia forense, onde o crime se desmaterializa e a prova reside em fótons e elétrons.

  • Ampliando a Forense Digital: A perícia não se limita mais a recuperar arquivos deletados. Hoje, foca-se na Análise de Artefatos em Memória (RAM Forensics), onde os peritos capturam evidências voláteis que desaparecem ao desligar o computador.
  • Cyber Crimes e Especialistas:
    • Eugene Kaspersky: Referência mundial em análise de malwares e espionagem cibernética estatal.
    • Kevin Mandia: Especialista em resposta a incidentes de grande escala e intrusão de rede.
    • Brian Krebs: Jornalista e investigador focado no submundo do crime organizado digital e ransomware.
  • Técnicas Técnicas Avançadas:
    • Análise de Metadados e Esteganografia: A ciência de ocultar informações dentro de imagens ou vídeos, desafiando os peritos a encontrarem mensagens escondidas em arquivos aparentemente inofensivos.
    • Forense de Rede e Dark Web: O rastreamento de tráfego através de nós do Tor e a quebra de anonimato em mercados ilegais (como o extinto Silk Road).
    • Inteligência Artificial (IA) e Deepfakes: O novo campo da forense audiovisual que utiliza redes neurais para detectar manipulações em vídeos e áudios que poderiam incriminar inocentes ou absolver culpados.
  • Importância na Modernidade: No Direito do Trabalho contemporâneo, a forense digital é vital para provar casos de espionagem industrial, assédio via redes sociais e o uso indevido de sistemas corporativos, mantendo a integridade do nexo causal mesmo no ambiente remoto.

Conclusão: A Ciência como Sentinela da Justiça

A trajetória da criminologia forense, desde os eixos rompidos dos trens no Canadá até os servidores criptografados da Dark Web, demonstra uma constante: a necessidade de ferramentas objetivas para conter a subjetividade humana. Os especialistas modernos, como Kevin Mandia e Robert Hare, são os herdeiros diretos de Lombroso e Gross. Conclui-se que a justiça do século XXI é indissociável da tecnologia; sem a perícia de quarta geração, o Direito seria cego diante da complexidade algorítmica da sociedade atual. A ciência forense permanece, portanto, como a última linha de defesa da verdade real.

Referências

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