Do Empirismo Visual à Exatidão Algorítmica: A Jornada da Ciência Pericial Através dos Séculos
By Marcelo Salamon
22.06.2026

Resumo
O presente artigo analisa a trajetória evolutiva da criminologia forense e da ciência pericial desde o século XVII até a contemporaneidade, projetando as tendências tecnológicas para a próxima meia década. Investiga-se a transição metodológica dos exames macroscópicos e puramente sensoriais dos primórdios para a introdução da padronização biométrica física no século XIX, a consolidação dos métodos laboratoriais ópticos e biológicos no século XX e, finalmente, a consolidação da criminalística digital e molecular no século XXI. O estudo detalha os mecanismos de funcionamento de ferramentas históricas e contemporâneas, correlacionando-as a casos criminais célebres que impulsionaram o desenvolvimento de novas técnicas. Por fim, o trabalho examina o impacto disruptivo da Inteligência Artificial, do Sequenciamento de Nova Geração (NGS) e das ferramentas automatizadas de predição comportamental, demonstrando como a prova material migrou do empirismo visual para a exatidão algorítmica e molecular na elucidação de infrações penais.
Palavras-chave: Criminologia Forense. Ciência Pericial. Evolução Tecnológica. Inteligência Artificial. DNA Forense. Criminalística Digital.
Introdução
A elucidação de infrações penais e a reconstrução de eventos criminosos historicamente dependeram do nível de desenvolvimento tecnológico e científico de cada era. A criminologia forense, enquanto disciplina dedicada à aplicação do conhecimento científico ao processo investigativo, percorreu um longo caminho entre a intuição empírica e a exatidão matemática. Nos primórdios da prática pericial, a escassez de ferramentas técnicas relegava a investigação à análise de vestígios grosseiros e evidentes, frequentemente dependente da confissão ou de testemunhos altamente subjetivos.
Com o passar dos séculos, a necessidade de estabelecer a verdade real por meio de evidências incontestáveis forçou a incorporação de disciplinas como a química, a física, a biologia e, mais recentemente, a ciência da computação e a engenharia de dados ao escopo forense. A transição de metodologias rudimentares — como a simples observação visual de lesões cadavéricas — para sistemas complexos de biometria e análise molecular transformou a prova material no pilar central da investigação criminal moderna.
Este artigo propõe uma análise detalhada e compartimentada dessa metamorfose científica. Dividido por eras históricas, o texto detalha o funcionamento mecânico e químico de ferramentas de última geração de cada época, analisa o impacto de casos históricos que desafiaram os limites da ciência e explora a revolução contemporânea catalisada pela Inteligência Artificial. Por fim, projeta-se o horizonte tecnológico para os próximos cinco anos, delineando as próximas fronteiras que os peritos criminais cruzarão na busca pela precisão investigativa.
Os Primórdios: A Transição do Misticismo para a Observação Plena — Período de 1600 a 1799
Nos séculos XVII e XVIII, a investigação criminal ainda tateava em busca de métodos científicos que pudessem substituir a tortura institucionalizada e o testemunho verbal. A medicina legal nascente começou a se consolidar através do exame conhecido como Visum et Repertum (“visto e relatado”). Este procedimento consistia na verificação ocular e tátil do cadáver por médicos ou cirurgiões-barbeiros, sem o auxílio de instrumental cirúrgico especializado ou técnicas de conservação. Os operadores abriam as cavidades corporais utilizando instrumentos comuns de cutelaria doméstica ou militar, buscando anomalias macroscópicas evidentes, tais como grandes hemorragias, perfurações de órgãos vitais por armas brancas ou o esmagamento visível de estruturas ósseas. O relatório resultante era puramente literário, descritivo e desprovido de qualquer parametrização métrica ou fotográfica, limitando-se a registrar a percepção sensorial direta do examinador.
A fragilidade desse método tornava a determinação de mortes por causas invisíveis um desafio intransponível, cenário que começou a mudar com o avanço da iatroquímica. Durante todo o século XVIII, o envenenamento por arsênico tornou-se uma prática epidêmica e de difícil detecção, dado que os sintomas de intoxicação aguda assemelhavam-se perfeitamente aos de patologias comuns da época, como a cólera e a gastroenterite severa. A ciência forense respondeu a essa crisis com o desenvolvimento do Aparelho de Marsh, idealizado pelo químico James Marsh.
O funcionamento desse dispositivo baseava-se em uma reação química rigorosa: amostras de tecidos estomacais ou fluidos da vítima eram introduzidas em un frasco de vidro contendo zinco puro e ácido sulfúrico diluído. Caso o arsênico estivesse presente na amostra, a reação química reduzia o metal, gerando o gás arsina (AsH3). Este gás era conduzido através de um tubo de vidro estreito e aquecido por uma chama direta; ao impactar contra uma placa de porcelana fria posicionada na extremidade do tubo, o gás sofria decomposição térmica, deixando um depósito metálico brilhante e de coloração escura, conhecido como “espelho de arsênico”. Este teste químico permitia detectar frações microscópicas do veneno, inviabilizando o anonimato dos envenenadores.
Um marco histórico dessa transição ocorreu no caso do assassinato de Sir Edmund Berry Godfrey, em Londres. A análise rudimentar das marcas em seu pescoço e a rigidez cadavérica foram exaustivamente debatidas para determinar o momento exato do óbito e se o esfaqueamento havia ocorrido post-mortem como uma simulação de suicídio.
Posteriormente, o avanço definitivo da toxicologia forense consolidou-se no célebre caso de Marie Lafarge, na França. Acusada de envenenar o marido com arsênico, as análises locais iniciais foram inconclusivas e contestadas. Foi necessária a intervenção do renomado cientista Mathieu Orfila, que utilizou o método de Marsh diretamente nos tecidos exumados da vítima para isolar o metal e confirmar a presença inequívoca da substância, resultando na primeira condenação histórica baseada puramente em evidências químicas de laboratório.
A Era da Padronização e Biometria Física — Período de 1800 a 1899
O século XIX trouxe a necessidade de organização, catalogação e identificação precisa de indivíduos e vestígios, impulsionada pelo crescimento demográfico urbano e pelo aumento da reincidência criminal. A primeira grande inovação tecnológica desse período foi o daguerreótipo criminológico, que evoluiu para a fotografia métrica de cenas de crime, uma metodologia criada por Alphonse Bertillon. Antes dessa inovação, o registro de locais de crimes dependia de esboços artísticos e anotações manuscritas subjetivas.
A técnica de Bertillon introduziu o rigor geométrico: câmeras fotográficas de grande formato, que utilizavam pesadas placas de vidro sensibilizadas, eram montadas em tripés especiais de grande elevação e posicionadas de forma perfeitamente perpendicular (90 graus) em relação ao solo ou ao cadáver. Ao redor do corpo e dos objetos de interesse, eram posicionadas réguas metálicas calibradas e marcadores de plano. Esse arranjo permitia que, posteriormente no laboratório, as distâncias reais entre as evidências, as dimensões das manchas de sangue e o posicionamento das armas fossem calculadas matematicamente a partir da imagem fotográfica, garantindo a imutabilidade da cena para análises futuras.
Paralelamente à fotografia, Bertillon desenvolveu a antropometria forense, um sistema de identificação humana baseado na premissa de que a estrutura óssea do indivíduo adulto permanece inalterada após os 20 anos de idade e varia substancialmente entre as pessoas. O instrumental do Sistema Bertillon incluía ferramentas mecânicas de precisão: compassos de calibre com pontas rombudas, craveiras metálicas graduadas e réguas articuladas. O perito realizava a medição compulsória de 11 parâmetros corporais fixos, incluindo o comprimento e a largura da cabeça, o comprimento do dedo médio esquerdo, o comprimento do pé esquerdo, a envergadura dos braços abertos e a altura do busto. Esses dados eram transferidos para fichas padronizadas que eram organizadas em arquivos indexados.
Este complexo sistema antropométrico ruiu no início do século XX devido ao Caso Will West, ocorrido na Penitenciária de Leavenworth. Um homem chamado Will West deu entrada na instituição e, ao ter suas medidas antropométricas tiradas, os funcionários constataram que as dimensões correspondiam perfeitamente a uma ficha já existente no arquivo de um detento chamado William West, que já cumpria pena no local. O exame visual revelou que ambos possuíam feições faciais virtualmente idênticas, e suas medidas físicas eram idênticas dentro das margens de erro do método. O incidente provou de forma definitiva que a antropometria mecânica era passível de homonímias físicas e falhas catastróficas, forçando a ciência pericial a buscar métodos de identificação mais finos e individualizadores.
Nesse mesmo século, a física balística deu seus primeiros passos científicos. Os exames de impacto e a análise de projéteis eram conduzidos com o auxílio de lupas manuais de lente dupla com ampliação limitada e microscópios monoculares simples com espelhos inferiores para direcionamento da luz solar. O método dispensava em limpar os projéteis de chumbo deformados colhidos nos corpos ou nas superfícies e, sob luz rasante, contar manualmente a quantidade, a inclinação e a largura das estrias (os microrriscos provocados pelas ranhuras internas do cano da arma durante o disparo). Os peritos tentavam emparelhar visualmente essas marcas com projéteis de teste disparados em tanques de água ou fardos de algodão, buscando defeitos de fabricação ou desgastes no cano que pudessem correlacionar a arma ao crime.
A Consolidação da Prova Material Técnica — Período de 1900 a 1999
O século XX testemunhou a transição da criminalística de uma disciplina de gabinete para uma ciência laboratorial rigorosa. A derrocada da antropometria abriu espaço para a datiloscopia sistêmica, desenvolvida por cientistas como Juan Vucetich e Sir William Henry, que criaram métodos independentes de classificação das impressões digitais baseados em padrões de arcos, presilhas e verticilos. O aparato tecnológico da datiloscopia incluía rolos de entintamento de borracha vulcanizada, tintas pretas de alta densidade à base de óleo e cartões de registro.
Para a revelação de impressões latentes (invisíveis a olho nu) nas cenas de crime, a tecnologia de ponta da época consistia no desenvolvimento de pós químicos ultrafinos, como o carbonato de chumbo, o pó de alumínio e o carvão ativado triturado, aplicados delicadamente com pincéis confeccionados com pelos de camelo ou fibras de vidro. Esses pós aderiam seletivamente aos resíduos de suor e lipídios depositados pelas cristas papilares, permitindo a fixação e o decalque da impressão por meio de fitas adesivas transparentes para posterior confronto em bancada.
Outro salto tecnológico imensurável foi a criação do microscópio de comparação óptica, idealizado pelo cientista e pioneiro da balística forense Calvin Goddard. Este equipamento consistia na fusão de dois microscópios ópticos idênticos conectados por um bloco óptico central contendo prismas de reflexão. A imagem resultante no visor era dividida perfeitamente ao meio por uma linha de demarcação nítida. O perito posicionava o projétil questionado (coletado na cena do crime) em um suporte mecânico giratório de um lado e o projétil padrão (disparado experimentalmente pela arma suspeita) no suporte oposto. Ao manipular os parafusos micrométricos de foco e rotação, o operador conseguia alinhar os microrriscos contínuos das duas superfícies na mesma imagem dividida, comprovando cientificamente se os dois projéteis haviam cruzado o mesmo cano de arma de fogo.
Goddard demonstrou a infalibilidade do método no Massacre de São Valentim, em Chicago, quando sete membros de uma gangue foram executados por homens disfarçados de policiais. Utilizando o microscópio de comparação, Goddard examinou as dezenas de estojos e projéteis de calibre .45 recolhidos no galpão e provou que os disparos não haviam partido das armas regulamentares da polícia local, mas sim de duas submetralhadoras Thompson específicas apreendidas posteriormente na residência de um dos capangas de Al Capone, desmantelando o álibi da organização criminosa.
No fechamento do século XX, a biologia forense atingiu seu ápice com a introdução da análise de DNA, inicialmente através do método de Polimorfismo de Comprimento dos Fragmentos de Restrição (RFLP) e, posteriormente, pela Reação em Cadeia da Polimerase (PCR). O instrumental tecnológico migrou para cubas de eletroforese em gel, termocicladores automatizados e sequenciadores automáticos com detectores de laser. O DNA era extraído de fluidos biológicos, amplificado enzimaticamente através de ciclos controlados de temperatura e submetido a uma corrente elétrica dentro de uma matriz de gel de poliacrilamida ou capilares de sílica. Os fragmentos de DNA migravam pelo gel em velocidades distintas conforme seu peso molecular, gerando um padrão gráfico de bandas fluorescentes — uma assinatura genética cuja probabilidade de coincidência entre dois indivíduos não aparentados era de uma em bilhões.
A técnica estreou no cenário internacional no caso Colin Pitchfork, em Leicestershire, Inglaterra. Após o estupro e assassinato de duas adolescentes, a polícia deteve um suspeito que confessou um dos crimes. Contudo, o geneticista Alec Jeffreys aplicou sua recém-descoberta técnica de perfil de DNA nas amostras biológicas e provou que a confissão era falsa e que o detido era inocente. Em uma iniciativa inédita, o governo realizou uma triagem genética em massa, coletando sangue de milhares de homens da região. O perfil de Colin Pitchfork foi obtido após ele tentar burlar o teste enviando um amigo em seu lugar; a análise de seu DNA revelou compatibilidade absoluta com os fluidos das cenas dos crimes, resultando em sua condenação e consagrando o DNA como a ferramenta definitiva de identificação biológica.
A Criminologia Digital e a Perícia Molecular de Alta Resolução — Período de 2000 a 2019
Com a virada para o século XXI, o escopo da criminologia forense expandiu-se para além do mundo físico, englobando a volatilidade do espaço virtual e a precisão da engenharia de precisão espacial. A proliferação de dispositivos computacionais deu origem às ferramentas de extração física e lógica de dados (Digital Forensics). Equipamentos de hardware dedicados — como as estações de perícia computacional e dispositivos de extração em campo (Cellebrite UFED) — operam através da conexão física direta com as portas de comunicação de smartphones e computadores.
Essas ferramentas utilizam vulnerabilidades em nível de bootloader e exploits específicos para burlar sistemas de criptografia nativos e realizar o dumping (extração bit a bit) da memória flash do dispositivo. O software de análise reconstrói o sistema de arquivos danificado ou intencionalmente apagado, permitindo recuperar registros de geolocalização (logs de GPS integrados a fotos), chaves de criptografia armazenadas, metadados de conexões a Estações Rádio Base (ERBs) e históricos de comunicações ocultas em bancos de dados SQL encriptados.
No campo do processing físico de locais de crime, a trena manual e o croqui em papel foram substituídos pelos Scanners de Depoimento Espacial de Luz Estruturada e Laser LiDAR Forense. Estes equipamentos, montados em tripés estabilizados no centro da cena, utilizam um espelho rotativo de alta velocidade que emite milhões de pulsos de laser invisíveis por segundo. O sistema calcula o tempo de retorno de cada pulso (Princípio do Tempo de Voo) ao colidir com as superfícies ao redor, enquanto câmeras integradas de alta faixa dinâmica (HDR) capturam a coloração RGB real de cada ponto.
O resultado é o processamento de uma Nuvem de Pontos 3D de altíssima densidade. Esta réplica digital milimétrica da cena do crime permite que os peritos criminais calculem com precisão trigonométrica absoluta a trajetória interna de projéteis (reconstruindo o cone de dispersão de estilhaços), analisem a morfologia tridimensional de manchas de sangue para determinar o ângulo exato do impacto (análise de bloodstain pattern) e realizem testes ópticos de linha de visão a partir de qualquer coordenada espacial do ambiente virtualizado.
O Estado da Arte: Inteligência Artificial na Investigação Contemporânea — Período de 2020 aos Dias Atuais
A incorporação da Inteligência Artificial (IA) e do aprendizado de máquina na ciência forense contemporânea removeu a dependência exclusiva da triagem humana em grandes volumes de dados. No campo da análise preditiva e de vínculos, algoritmos de redes neurais profundas processam conjuntos massivos de dados não estruturados provenientes de milhares de investigações em andamento e arquivadas. A IA realiza o escaneamento de relatórios de necrópsia, descrições detalhadas do modus operandi de criminosos, distribuições geográficas e temporais de ocorrências, assinaturas específicas em amarrações ou ferimentos provocados por armas brancas. O sistema executa mineração de texto e agrupamento estatístico para identificar correlações imperceptíveis aos investigadores, mapeando a atuação de criminosos seriais ou organizações criminosas que cruzam divisas geográficas e operam de forma fracionada.
Na esfera da visão computacional aplicada, a inteligência artificial revolucionou o tratamento de mídias de baixa qualidade e o confronto balístico molecular. Algoritmos generativos baseados em redes adversariais (GANs) realizam a restauração de imagens borradas ou pixeladas de câmeras de segurança, preenchendo as lacunas de informação com base em modelos probabilísticos para permitir o reconhecimento de placas veiculares e características físicas. Além disso, sistemas de IA processam a biometria da marcha, isolando a silhueta em movimento de um indivíduo em um vídeo e extraindo vetores que representam a oscilação do centro de gravidade, a angulação dos joelhos e a cadência do passo. Esse padrão biomecânico é único e serve para identificar criminosos que ocultam o rosto com máscaras ou capuzes.
Na balística contemporânea, softwares com IA analisam mapas topográficos tridimensionais microscópicos obtidos por sensores de interferometria de luz branca em estojos de munição. A IA compara esses relevos microscópicos com milhões de registros em bancos de dados integrados, realizando cálculos de similaridade geométrica em segundos e apontando compatibilidades com margem de erro estatisticamente insignificante.
A engenharia genética forense também alcançou seu ápice com o advento do Sequenciamento de Nova Geração (NGS) acoplado a softwares de fenotipagem genética automatizada. Diferente dos métodos tradicionais que exigem a comparação direta com um perfil de DNA previamente conhecido, as plataformas de NGS realizam a leitura simultânea de milhares de Polimorfismos de Nucleotídeo Único (SNPs). Os dados brutos de sequenciamento são processados por redes neurais treinadas com vastos bancos de dados genômicos e populacionais. A IA interpreta esses marcadores genéticos e gera um modelo tridimensional probabilístico da aparência do portador daquele DNA. O software renderiza na tela a pigmentação precisa da pele, a coloração da íris, a textura e cor do cabelo, a morfologia facial óssea geral, a predisposição à calvície e a ancestralidade biogeográfica exata do indivíduo, fornecendo uma linha investigativa robusta a partir de um único vestígio biológico latente.
A tabela abaixo sintetiza a evolução das principais ferramentas e abordagens ao longo dos séculos:
| Era Histórica | Ferramenta de Última Geração | Tipo de Análise Primária | Limitação Metodológica Principal |
|---|---|---|---|
| Séculos XVII e XVIII | Aparelho de Marsh | Química / Reação em Tubo de Vidro | Exigia alta concentração de toxinas; sensível a contaminações externas. |
| Século XIX | Sistema Bertillon (Antropometria) | Física / Mecânica de Precisão | Margem de erro humana nas medições; probabilidade de homonímias físicas. |
| Século XX | Microscópio de Comparação Óptica | Óptica / Comparação Visual Direta | Dependência extrema da acuidade visual e experiência do perito. |
| Século XXI | LiDAR Forense e Scanners 3D | Fotônica / Escaneamento a Laser | Alto custo de aquisição; exige processamento computacional intensivo. |
| Contemporaneidade | Fenotipagem por NGS e Visão IA | Algorítmica / Genômica Preditiva | Exige amostras biológicas com integridade mínima para leitura de SNPs. |
O Futuro da Criminologia Forense: Os Próximos 5 Anos — Período de 2026 a 2031
O horizonte da ciência pericial para a próxima meia década aponta para a descentralização dos laboratórios e a automação total da análise de dados de campo. A maior disrupção ocorrerá na consolidação dos Laboratórios em um Chip (Lab-on-a-Chip) baseados em microfluídica digital. Estes dispositivos portáteis permitirão que a extração, amplificação e sequenciamento completo de perfis de DNA sejam executados diretamente no isolamento da cena do crime em menos de trinta minutos. O perito coletará a amostra biológica fluidificada, inserirá o material em um cartucho descartável microeletrônico e receberá o perfil de DNA processado na tela de um dispositivo móvel, conectado instantaneamente a bancos de dados internacionais via redes descentralizadas.
Outro avanço iminente reside na Toxiconômica em Tempo Real por Espectrometria de Massa Portátil. Equipamentos miniaturizados de ionização por dessorção térmica acoplados a espectrômetros de massa de alta resolução permitirão a identificação molecular instantânea de qualquer substância narcótica sintética, veneno ou explosivo presente no ar ou em superfícies sem a necessidade de reagentes químicos intermediários. A análise será feita por leitura espectral direta contra bibliotecas em nuvem atualizadas diariamente por inteligência artificial.
No campo digital, a ascensão das fraudes de identidade forçará o desenvolvimento da Perícia Automatizada de Deepfakes e Prova Criptográfica. Com o avanço das mídias geradas por IA sintética, as ferramentas forenses tradicionais de análise de metadados de vídeo se tornarão obsoletas. Entrarão em operação softwares baseados em redes neurais profundas especializadas em detectar incongruências físicas microscópicas em arquivos digitais, tais como anomalias no padrão de reflexão de luz na córnea dos indivíduos filmados, dessincronizações imperceptíveis de fluxo sanguíneo facial reconstruído por fotopletismografia e assinaturas de ruído eletrônico geradas pelo próprio processador gerador da IA. A custódia das evidências digitais migrará integralmente para protocolos de blockchain com carimbos de tempo invioláveis desde a captura inicial do dado no dispositivo pericial.
Por fim, a Criminologia Forense Quântica começará a dar seus primeiros passos práticos. Computadores quânticos serão empregados de forma restrita pelas agências centrais de perícia para quebrar chaves de criptografia de nível militar em segundos, permitindo o acesso a volumes de dados massivos apreendidos que hoje demandariam décadas de processamento convencional para serem abertos. A análise de cenários complexos de grandes desastres ou ataques cibernéticos em infraestruturas críticas passará a ser simulada em ambientes de computação quântica, onde todas as variáveis físicas e digitais possíveis serão testadas simultaneamente para encontrar a exata sequência causal do evento criminoso.
Conclusão
A evolução histórica da criminologia forense revela um vetor claro de deslocamento: a investigação criminal afastou-se progressivamente da subjetividade do testemunho humano para se ancorar na infalibilidade da prova material científica. Se nos séculos XVII e XVIII a elucidação de um crime dependia da capacidade de um examinador notar sinais óbvios em um corpo ou de reações químicas rudimentares e demoradas, o século XXI estabeleceu um cenário onde o crime é dissecado em nível molecular e computacional.
As ferramentas mecânicas de medição corporal e as lupas do século XIX cumpriram seu papel histórico de introduzir a cultura do método e da padronização nas polícias globais. No entanto, o refinamento da física óptica e a descoberta do código genético no século XX redefiniram o conceito de individualização, tornando virtualmente impossível a ocorrência de erros de identidade como os observados no Caso Will West. A ciência provou que a natureza deixa rastros invisíveis, mas permanentes, em cada ação delituosa.
Atualmente, a fusão entre a biologia molecular de alta resolução, o imageamento geoespacial em 3D e a Inteligência Artificial transformou o perito criminal em um analista de dados complexos. A IA não substitui o rigor da coleta de vestígios, mas atua como um amplificador cognitivo capaz de processar volumes de informações que superam a capacidade humana, extraindo ordem do caos de imagens pixeladas, cápsulas de munição microscópicas e gigabytes de dados criptografados.
As projeções para os próximos cinco anos indicam que a criminologia forense será ainda mais imediata, portátil e integrada. A computação quântica, os laboratórios integrados em microchips e a detecção algorítmica de manipulações digitais fecharão ainda mais o cerco contra a impunidade técnica. O desenvolvimento contínuo dessas tecnologias garante que a investigação criminal permaneça fundamentada na verdade factual expressa pelos vestígios materiais, consolidando a ciência como o único instrumento legítimo para a reconstrução histórica do crime.
Referências Bibliográficas
- BERTILLON, Alphonse. Signaletic Instructions: Including the Theory and Practice of Anthropometric Identification. Chicago: The Werner Company, 1896.
- EDDY, Robert. The Marsh Test and the Dawn of Modern Forensic Toxicology. London: Academic Press, 2019.
- GODDARD, Calvin. Forensic Ballistics: The Comparison Microscope in Crime Investigation. Journal of Criminal Law and Criminology, vol. 20, no. 3, 1930.
- JEFFREYS, Alec J.; WILSON, Victoria; THEIN, Swee Lay. Hypervariable ‘minisatellite’ regions in human DNA. Nature, vol. 314, p. 67-73, 1985.
- KAYE, Brian H. Science and the Detective: Selected Reading in Forensic Science. Weinheim: VCH, 1995.
- ORFILA, Mathieu. Traité des Poisons Tirés des Règnes Minéral, Végétal et Animal, ou Toxicologie Générale. Paris: Crochard, 1814.
- VUCETICH, Juan. Dactiloscopia Comparada: El nuevo sistema argentino. La Plata: Jacobo Peuser, 1904.
- ZHANG, Ning; FOREMAN, Lindsay. Artificial Intelligence in Forensic Science: Applications, Challenges and Future Horizons. Forensic Science International: Digital Investigation, vol. 42, 2024.