Perfis, Modus Operandi e a Psicologia dos Grandes Capos

By Marcelo Salamon

19.07.2026

Resumo: O narcotráfico mexicano evoluiu de redes rudimentares de contrabando para corporações criminosas transnacionais altamente sofisticadas e militarizadas. Este artigo analisa o fenômeno a partir das trajetórias de três de seus líderes mais emblemáticos: Joaquín “El Chapo” Guzmán, Ismael “El Mayo” Zambada e Miguel Ángel Treviño Morales (“Z-40”). Através de uma abordagem analítica que cruza a criminologia forense, a psicologia criminal e a sociologia das organizações, examinam-se as discrepâncias em seus perfis psiquiátricos, métodos logísticos e no uso estratégico da violência. Conclui-se que a resiliência dos cartéis não depende de um padrão único de liderança, mas da adaptabilidade de diferentes perfis psicológicos e operacionais às exigências do mercado e do controle territorial.

Palavras-chave: Criminologia Forense; Psicologia Criminal; Cartéis Mexicanos.

1. Introdução

Ao longo de mais de quatro décadas, o cenário do crime organizado no México sofreu uma metamorfose radical. O que antes se configurava como um conjunto de clãs familiares e regionais dedicados ao contrabando de maconha e heroína transformou-se em uma rede global de holdings criminosas. Essas estruturas movimentam bilhões de dólares anualmente, controlam fluxos logísticos intercontinentais e desafiam abertamente o monopólio da violência legítima do Estado.

Por trás da frieza dos indicadores macroeconômicos e humanitários — que contabilizam toneladas de substâncias sintéticas como o fentanil e dezenas de milhares de homicídios —, reside uma complexa engrenagem humana. O sucesso operacional, a longevidade e a capacidade de regeneração de organizações como o Cartel de Sinaloa e Los Zetas estão intrinsecamente ligados aos perfis psicológicos e estratégicos de seus líderes.

Para a criminologia forense e a psicologia criminal, o estudo dessas lideranças de topo (os chamados grandes capos) afasta-se de visões romanceadas ou puramente biográficas. O foco reside na compreensão de como traços de personalidade específicos — que variam do narcisismo estratégico ao sadismo instrumental — moldam o modus operandi institucional de suas respectivas organizações.

Este artigo propõe uma análise comparativa aprofundada de três eixos distintos do poder criminal mexicano: o carisma e a resiliência de Joaquín “El Chapo” Guzmán; o pragmatismo invisível de Ismael “El Mayo” Zambada; e o terror militarizado de Miguel Ángel Treviño Morales, o “Z-40”. Através desse mapeamento, busca-se decifrar as variáveis psicológicas, logísticas e táticas que governam as economias criminosas paralelas da América Latina.

2. Joaquín “El Chapo” Guzmán: O Arquiteto e a Mitificação do Cartel de Sinaloa

[Miguel Ángel Félix Gallardo] ---> [Fragmentação de Guadalajara] ---> [Joaquín "El Chapo" Guzmán]
 (Fundador de Guadalajara)                                             (Fundação de Sinaloa)

2.1 Histórico de Vida e Ascensão Concreta

Joaquín Guzmán Loera nasceu na década de 1950 no coração do “Triângulo Dourado” mexicano — especificamente em La Tuna, um povoado cravado na densa e isolada serra de Badiraguato, Sinaloa. A região, historicamente marcada pela ausência de infraestrutura estatal e solo propício para o cultivo de papoula e maconha, moldou sua infância. Filho de um camponês alcoólatra e violento que atuava no nível mais baixo da cadeia produtiva do tráfico, Guzmán cresceu em um ambiente de severa privação material e abandono escolar precoce.

Sua inserção no crime organizado ocorreu no final dos anos 1970 e consolidou-se na década de 1980, quando ingressou no Cartel de Guadalajara sob a tutela de Miguel Ángel Félix Gallardo, conhecido como “O Chefe dos Chefes”. Atuando inicialmente como gestor de logística e piloto, Guzmán destacou-se pela pontualidade e rigidez no cumprimento dos prazos de entrega de cocaína oriunda da Colômbia, executando pessoalmente os subalternos que atrasavam remessas.

Com a prisão de Félix Gallardo em 1989 e a consequente pulverização do Cartel de Guadalajara, Guzmán herdou rotas estratégicas e fundou, junto a outros aliados, o Cartel de Sinaloa. Durante as décadas de 1990 e 2000, ele capitaneou a expansão da organização por meio de guerras sangrentas contra cartéis rivais (como os de Tijuana e Juárez), estabelecendo uma hegemonia que transformou a federação de Sinaloa na principal exportadora de entorpecentes para os Estados Unidos e a Europa.

2.2 Perfil Psiquiátrico e Traços de Personalidade

Sob a ótica da psicologia criminal, as ações e registros comportamentais de Guzmán evidenciam uma manifestação nítida do Transtorno de Personalidade Antissocial (TPAS) amalgamado a traços profundos de Narcisismo Maligno. A faceta antissocial se traduz na ausência crônica de remorso ou empatia, permitindo-lhe ordenar centenas de execuções sem sofrer dissonância cognitiva, tratando o assassinato como mero instrumento de correção de mercado ou contenção de dissidências.

O componente narcisista manifestava-se em sua incessante necessidade de validação, grandiosidade e autoglorificação. O uso de armas banhadas a ouro e incrustadas de diamantes, a ostentação de riqueza em redutos rurais e, fundamentalmente, a sua decisão de conceder uma entrevista clandestina ao ator americano Sean Penn em 2015 — motivada pelo desejo de ter sua biografia transformada em um filme de Hollywood — ilustram como a vaidade frequentemente competia com a autopreservação.

Adicionalmente, criminólogos destacam em Guzmán uma elevadíssima tolerância ao risco combinada com resiliência cognitiva e pensamento estratégico de longo prazo. Essas características permitiam que, mesmo confinado em ambientes de isolamento extremo, ele mantivesse o foco na reestruturação de suas redes logísticas e na engenharia de suas fugas.

2.3 Modus Operandi e Engenharia Logística

O método de gestão corporativa-criminal de “El Chapo” baseava-se em uma tríade de sustentação:

  1. Corrupção Estrutural: Suborno sistemático que alcançava desde agentes penitenciários de baixo escalão até altas patentes das forças de segurança e do poder político mexicano, transformando o aparato estatal em um escudo protetor.
  2. Inovação Tecnológica e Logística: Guzmán revolucionou o contrabando transfronteiriço ao introduzir o uso de túneis subterrâneos de alta engenharia, equipados com iluminação, trilhos e sistemas de ventilação, cruzando a fronteira por baixo do solo do Arizona e da Califórnia. Também foi pioneiro no uso de frotas de aeronaves executivas, contêineres comerciais modificados e submersíveis caseiros (semissubmersíveis) para burlar a vigilância costeira.
  3. Descentralização Celular: O cartel operava por meio de uma estrutura em rede, onde células independentes gerenciavam subetapas (transporte, refino, distribuição e lavagem de dinheiro), garantindo que a queda de uma ramificação não comprometesse o núcleo diretivo.
       [Núcleo Diretivo] (Guzmán/Zambada)
               |
   +-----------+-----------+
   |                       |
[Célula A]             [Célula B] -> (Isolamento de Informação)
(Logística/Túneis)    (Distribuição Urbana)

2.4 Cronologia de Capturas e Linha do Tempo Judicial

Primeira Prisão (Guatemala)

09/06/1993

Capturado na fronteira com a Guatemala após a repercussão do assassinato do Cardeal Juan Jesús Posadas Ocampo. Foi condenado a 20 anos de reclusão.

Primeira Fuga (Puente Grande)

19/01/2001

Evadiu-se do presídio de segurança máxima de Puente Grande, Jalisco. O método oficial aponta que se escondeu em um carrinho de lavanderia, embora investigações demonstrem ampla facilitação interna via suborno de guardas e da diretoria.

Recaptura em Mazatlán

22/02/2014

Após 13 anos foragido, foi localizado e detido por fuzileiros navais mexicanos em um complexo de condomínios em Mazatlán, Sinaloa, sem que um único disparo fosse efetuado.

Segunda Fuga (Altiplano)

11/11/2015

Escapou do presídio de segurança máxima do Altiplano através de uma abertura no chão do chuveiro de sua cela, que se conectava a um túnel de 1,5 km de extensão engenhosamente cavado, com trilhos e uma motocicleta adaptada.

Recaptura Final em Los Mochis

08/01/2016

Localizado em Los Mochis, Sinaloa, após intensa investigação que rastreou os contatos de seus advogados com produtores de cinema. A prisão ocorreu após violento confronto armado.

Extradição e Condenação

19/01/2017

Extraditado para os Estados Unidos. Em 2019, após o chamado “Julgamento do Século” em Nova York, foi condenado à prisão perpétua, sendo transferido para a penitenciária de segurança máxima ADX Florence, no Colorado.

3. Ismael “El Mayo” Zambada: O Estrategista Silencioso e o Capital Social

3.1 Trajetória e Sobrevivência Geracional

Nascido em 1948 na comunidade de El Álamo, Sinaloa, Ismael Zambada García representa o polo oposto do exibicionismo criminal. Enquanto a maioria de seus contemporâneos foi presa, assassinada ou extraditada, “El Mayo” manteve-se ininterruptamente no topo do narcotráfico por mais de cinco décadas sem jamais ter pisado em uma prisão mexicana até sua captura tardia.

Sua formação criminal remonta aos anos 1970 no Cartel de Juárez e na antiga Federação, operando ao lado de dinossauros do crime como Amado Carrillo Fuentes (“O Senhor dos Céus”) e Miguel Ángel Félix Gallardo. Ao cofundar o Cartel de Sinaloa moderno ao lado de Guzmán, Zambada assumiu o papel de diretor financeiro, mediador político e estabilizador da organização.

3.2 Análise Psicológica: O Perfil Calculista e o Controle de Impulsos

Se “El Chapo” encarnava o narcisismo impulsivo, Zambada representa o arquétipo do criminoso de colarinho branco corporativo inserido em um contexto de criminalidade violenta. Seu perfil denota um controle de impulsos hiperdesenvolvido e baixíssima necessidade de validação pública. O pragmatismo e a aversão ao risco guiaram todas as suas decisões: em vez de buscar o reconhecimento das massas ou a ostentação urbana, ele optou pelo anonimato, vivendo de forma austera e mimetizada nas regiões montanhosas de Sinaloa, Durango e Chihuahua.

A liderança de Zambada operava com base na racionalidade instrumental extrema. Para ele, a violência nunca foi um fim ou uma demonstração de virilidade, mas estritamente um “custo operacional” acionado apenas quando os canais de negociação e suborno falhavam. Sua insensibilidade moral é profunda e camuflada por uma fachada de “patriarca benfeitor” que financiava escolas, igrejas e sistemas de irrigação em comunidades agrárias, construindo uma blindagem social baseada na lealdade e na dependência econômica da população local.

3.3 Modus Operandi e o “Poder de Bastidores”

O diferencial estratégico de “El Mayo” residia na gestão do capital social e político. Ele especializou-se no controle de portos estratégicos (como Manzanillo e Lázaro Cárdenas) e na importação massiva de precursores químicos da Ásia para a síntese industrial de metanfetamina e fentanil, prevendo a transição do mercado global de drogas vegetais para as drogas sintéticas.

Zambada atuava como um árbitro diplomático do crime. Quando as facções internas do cartel — como os filhos de Guzmán (“Los Chapitos”) — entravam em conflitos violentos e ostensivos que atraíam a atenção do exército, “El Mayo” intervinha para pacificar as estruturas ou isolava deliberadamente as células barulhentas, permitindo que a pressão estatal recaísse sobre elas enquanto seus negócios continuavam operando na penumbra.

3.4 Captura Inédita e Desfecho Judicial

A longevidade operacional de Zambada foi rompida em 25 de julho de 2024. Em um episódio com nuances de espionagem e traição interna, ele foi detido ao pousar em um aeroporto privado nas proximidades de El Paso, Texas. Segundo investigações do Departamento de Justiça dos EUA, Zambada teria sido enganado por Joaquín Guzmán López (filho de “El Chapo”), que o compeliu a embarcar em uma aeronave sob o pretexto de inspecionar terrenos e pistas de pouso no México, mas o voo tinha como destino o solo americano.

Em agosto de 2025, diante de um tribunal federal no Brooklyn, Nova York, Zambada declarou-se culpado das acusações de conspiração para o narcotráfico, homicídio e lavagem de dinheiro, aceitando uma sentença de prisão perpétua para evitar o desgaste de um julgamento público e blindar o restante de sua família que opera em canais legítimos. Sua sentença formal está programada para julho de 2026.

4. Miguel Ángel Treviño Morales, “Z-40”: O Terror Sindicalizado de Los Zetas

       [Cartel do Golfo]
               |
  (Criação do Braço Armado)
               v
         [Los Zetas] (Fundadores: Ex-Militares GAFE)
               |
       (Ascensão por Terror)
               v
  [Miguel Ángel Treviño Morales] ("Z-40")

4.1 Origem e a Ruptura Doutrinária do Tráfico

Miguel Ángel Treviño Morales nasceu em 1973 em Nuevo Laredo, Tamaulipas, em uma região de fronteira seca fortemente disputada pelo contrabando. Diferente de Guzmán e Zambada, ele não possuía raízes rurais no cultivo da terra. Sua inserção no crime ocorreu através de gangues urbanas locais até ser recrutado por Los Zetas.

Los Zetas surgiram originalmente no final dos anos 1990 como o braço armado e a guarda pretoriana de Osiel Cárdenas Guillén, líder do Cartel do Golfo. O diferencial do grupo era sua composição inicial: desertores do Grupo Aeromóvil de Fuerzas Especiales (GAFE) do Exército Mexicano — militares de elite treinados em contra-insurgência, táticas de guerrilha e operações psicológicas. Embora Treviño Morales não fosse um militar de carreira, ele absorveu e radicalizou a doutrina militar do grupo. Após a morte de Heriberto Lazcano (“El Lazca”) em um confronto em 2012, ele assumiu o comando total da organização, desvinculada do Cartel do Golfo.

4.2 Perfil Psiquiátrico: Sadismo Instrumental e Psicopatia Grave

O perfil de “Z-40” é caracterizado por criminólogos forenses como uma manifestação extremada de Psicopatia Clássica (Fator 1 e Fator 2 da escala PCL-R) com componentes explícitos de sadismo e agressividade predatória. Ao contrário de seus rivais de Sinaloa, para quem a violência era um meio para atingir um fim comercial, na liderança de Treviño Morales a crueldade operava como uma ferramenta essencial de governança criminal.

Relatos documentados por agências de inteligência descrevem rituais de execução brutais idealizados por ele, incluindo o método do “guiso” (colocar vítimas vivas dentro de tambores de óleo de 200 litros e atear fogo) e decapitações em massa filmadas e divulgadas na internet. Na psicologia criminal, esse comportamento classifica-se como sadismo instrumental: o prazer em infligir dor física e psicológica extrema é intencionalmente canalizado para gerar um estado de paralisia social por meio do choque cultural e do terror psicológico absoluto. Não se tratava de impulsividade descontrolada, mas sim de uma estratégia deliberada de comunicação e intimidação.

4.3 Modus Operandi: Militarização e a Economia de Extração Territorial

Sob o comando de “Z-40”, Los Zetas alteraram permanentemente o paradigma do crime organizado na América Latina por meio de práticas inovadoras e destrutivas:

  • Militarização Tática: Introdução de armamento de guerra de grosso calibre (fuzis Barret .50, granadas, lançadores de foguetes) e o uso de fardamentos táticos idênticos aos das forças oficiais, operando como exércitos irregulares.
  • Diversificação Multicrime (Extração de Riqueza): Enquanto Sinaloa focava quase exclusivamente na cadeia de suprimentos de drogas, Los Zetas tratavam o território como uma colônia de extração. Expandiram as operações para a extorsão sistemática de todo o comércio local (cobrança de “direito de piso”), sequestro extorsivo em massa, pirataria, contrabando e tráfico de migrantes em situação vulnerável.
  • Huachicoleo de Larga Escala: O grupo industrializou o roubo de combustível perfurando dutos da estatal petrolífera Pemex, desviando milhões de barris de petróleo bruto e derivados para venda no mercado negro nacional e internacional.

Os Massacres da Fronteira: Sob a liderança de Treviño Morales, a organização perpetrou os massacres de San Fernando (2010 e 2011), onde centenas de migrantes centro-americanos foram executados por se recusarem a atuar como soldados do cartel, e o Massacre de Allende (2011), onde uma cidade inteira foi virtualmente destruída e dezenas de moradores foram mortos após a suspeita de que um membro da comunidade estaria colaborando com o DEA.

4.4 Prisão e Extradição

Em 15 de julho de 2013, o império de terror de “Z-40” foi interrompido. Forças especiais da Marinha Mexicana interceptaram sua picape em uma estrada de terra nas proximidades de Nuevo Laredo. A operação baseou-se puramente em inteligência tática e vigilância aérea por drones, surpreendendo o líder criminal de tal forma que ele foi capturado sem que sua escolha pudesse esboçar qualquer reação armada.

Após mais de uma década de recursos jurídicos e transferências constantes entre presídios federais mexicanos de segurança máxima para evitar que ele assumisse o controle interno das prisões, Treviño Morales foi finalmente extraditado para os Estados Unidos em fevereiro de 2025, onde aguarda julgamento por crimes de terrorismo criminal, narcotráfico e violações em massa dos direitos humanos.

5. Análise Comparativa e Matriz de Atividades Criminosas

Para compreender a complexidade do crime organizado moderno, é fundamental visualizar que as corporações criminosas não operam sob um modelo homogêneo. A tabela abaixo sintetiza e compara as principais características estruturais, psicológicas e operacionais das organizações analisadas:

Dimensão de AnáliseCartel de Sinaloa (Vertente “El Chapo”)Cartel de Sinaloa (Vertente “El Mayo”)Los Zetas (Era “Z-40”)
Núcleo do Perfil PsicológicoNarcisismo Maligno; Alta tolerância ao risco.Pragmatismo; Elevado controle de impulsos.Psicopatia Clássica; Sadismo Instrumental.
Uso Estratégico da ViolênciaSeletivo e punitivo (preservação da imagem).Mínimo e cirúrgico (violência como último recurso).Máximo e espetacularizado (terror como governança).
Pilar de Sustentação OperacionalEngenharia logística e inovação em transporte.Capital social, diplomacia criminal e alianças.Militarização, controle territorial e extração.
Principais AtividadesTráficos de cocaína, heroína e metanfetamina.Tráficos de fentanil e metanfetamina; Lavagem de dinheiro.Extorsão, sequestro, tráfico de pessoas e roubo de combustível.
Relacionamento com o EstadoInfiltração por corrupção e suborno.Cooptação política crônica de alto nível.Enfrentamento armado direto e assimetria tática.

6. Considerações Finais

A análise comparativa entre Joaquín “El Chapo” Guzmán, Ismael “El Mayo” Zambada e Miguel Ángel Treviño Morales demonstra empiricamente que o crime organizado transnacional é um fenômeno maleável e multifacetado, que rejeita tipologias simplistas. A longevidade e o impacto macroeconômico dessas redes criminosas derivam justamente de sua capacidade de acomodar e alternar diferentes estilos de liderança de acordo com as flutuações do mercado e a pressão dos aparatos de segurança estatal.

Enquanto Guzmán operava sob a égide do carisma e da constante reinvenção logística, criando um mito em torno de sua figura que servia como elemento de coesão interna e atração de novos recrutas, Zambada representava a sustentabilidade empresarial do crime, demonstrando que a discrição e a manutenção do capital político-social são as ferramentas mais eficazes para a sobrevivência a longo prazo. Em contrapartida, Treviño Morales e o modelo de Los Zetas expuseram a faceta mais sombria da evolução criminal: a metamorfose do narcotráfico em um modelo de terrorismo de extração territorial, onde o medo coletivo substitui o consenso e a corrupção.

Para a criminologia forense e o desenho de políticas públicas de segurança e inteligência, o entendimento dessas nuances é mandatório. Estratégias focadas exclusivamente na neutralização de lideranças (a chamada Kingpin Strategy) frequentemente geram vácuos de poder que disparam guerras internas ou induzem a fragmentação de cartéis tradicionais em células menores, mais violentas e imprevisíveis. Combater a sofisticação dessas estruturas exige, portanto, ir além da captura das mentes que as lideram, focando no desmonte de seus fluxos financeiros, no bloqueio de seus canais logísticos e, prioritariamente, na recuperação do tecido social das comunidades que lhes servem de base.

7. Referências Bibliográficas

  • ASTORGA, Luis. El siglo de las drogas: El narcotráfico, del Porfiriato a la Alianza por el Cambio. Cidade do México: Plaza y Janés, 2005.
  • CORREA-CABRERA, Guadalupe. Los Zetas Inc.: Criminal corporations, energy, and civil war in Mexico. Austin: University of Texas Press, 2017.
  • GRYLLO, Ioan. El Narco: Inside Mexico’s Criminal Insurgency. Nova York: Bloomsbury Press, 2011.
  • HARE, Robert D. Sem consciência: O mundo perturbador dos psicopatas que vivem entre nós. Porto Alegre: Artmed, 2013.
  • SÁNCHEZ, Martha Elena. Criminología Forense y Perfiles Criminales en el Narcotráfico Mexicano. Guadalajara: Editorial Tecnológica, 2021.
  • UNITED STATES DEPARTMENT OF JUSTICE. The United States vs. Joaquín Guzmán Loera: Trial Transcripts and Evidentiary Documents. Eastern District of New York, 2019.