By Salamon, Marcelo

29/04/2026

INTRODUÇÃO

A história da segurança pública no Brasil é marcada por uma profunda ruptura metodológica ocorrida no último quartel do século XX. Até meados da década de 1970, o cenário delitivo dos grandes centros urbanos era dominado pela figura do criminoso comum tradicional — rotulado na subcultura policial como o “vagalume” —, cuja atuação limitava-se a furtos, roubos e homicídios passionais ou reativos, desprovidos de coordenação logística ou pretensão de controle territorial. A metamorfose desse modelo para o crime organizado de alto impacto, operado por facções estruturadas sob moldes corporativos, não ocorreu por geração espontânea; demandou catalisadores humanos de alta capacidade de execução prática.

Entre esses artífices, destaca-se José Carlos dos Reis Encina, o “Escadinha”. Esta análise criminológica propõe-se a dissecar seu prontuário biográfico e de atuação, afastando o verniz folclórico que frequentemente contamina a literatura sociológica superficial. Sob o rigor da psiquiatria forense e da análise de cenários, Escadinha revela-se como um indivíduo portador de transtorno de conduta adaptativa de alto funcionamento executivo.

O cruzamento de sua biografia com o nascimento do Comando Vermelho na Prisão de Ilha Grande explicita o exato momento em que a delinquência comum apropriou-se das técnicas de organização celular e coletivismo da guerrilha política. Ao estabelecer as primeiras redes sólidas de narcotráfico internacional e subverter o monopólio da força estatal através de armamento bélico pesado e fugas espetaculares, Escadinha inaugurou a era da periculosidade endógena coletiva no Brasil, transformando o vácuo de assistência do Estado em um rentável e violento mercado oligárquico.

(Aqui entra o seu conteúdo original, do item “1. Prontuário Biográfico e Demográfico” até o início do último parágrafo).


1. Prontuário Biográfico e Demográfico

  • Nascimento: 21 de maio de 1956, Rio de Janeiro.
  • Morte: 23 de setembro de 2004 (48 anos).
  • Local do Óbito: Avenida Brasil, Rio de Janeiro (perseguição seguida de confronto).
  • Raio de Ação: Morro do Juramento (seu reduto principal), Ilha do Governador e complexos da Zona Norte.

2. Etiologia Criminal e Perfil Psiquiátrico

Diferente do psicopata clássico desorganizado, o perfil de Escadinha enquadra-se no Transtorno de Personalidade Antissocial (CID-10 F60.2), porém com alto funcionamento executivo.

  • Infância e Condicionamento: Criado em um ambiente onde o Estado era ausente, Escadinha desenvolveu precocemente uma aversão às instituições formais. Aos 12 anos, já possuía registros por pequenos furtos. Sua “escola” foi o Instituto Padre Severino, onde estabeleceu os primeiros contatos hierárquicos do crime.
  • Frieza e Pragmatismo: Não há evidências de surtos psicóticos; suas ações eram pautadas pela racionalidade estratégica. A violência não era um fim em si, mas uma ferramenta de manutenção de poder e controle territorial.
  • Sociopatia Adaptativa: Ele operava sob um código de ética próprio (“o crime não trai o crime”), o que facilitava a coesão do grupo e a gestão de subordinados.

3. A Estruturação do Comando Vermelho (CV)

Escadinha foi peça-chave na consolidação da Falange Vermelha, que evoluiu para o Comando Vermelho. Sua importância reside na união entre o preso comum e o preso político na Ilha Grande durante a ditadura militar.

  • A “Doutrina”: Ele absorveu técnicas de organização celular e coletivismo dos presos políticos, aplicando-as ao tráfico de drogas. Isso transformou o crime em uma “empresa” com fundo de assistência mútua (caixa comum para advogados e famílias de presos).
  • Escala de Crimes:
    1. Tráfico Internacional: Um dos primeiros a estabelecer rotas sólidas de cocaína vindas da Bolívia e Colômbia.
    2. Assalto a Bancos: Utilizava o dinheiro para financiar a compra de armamento pesado (fuzis AR-15 e granadas).
    3. Homicídios: Execuções sumárias de informantes (“X-9”) e rivais de outras facções (como o Terceiro Comando).
  • Contagem de Vítimas: Embora o prontuário oficial registre dezenas de homicídios diretos, a escala de mortes sob sua ordem ou em decorrência da guerra de facções iniciada por sua gestão é estimada em centenas. Na escala criminal brasileira, ele ocupa o nível Alfa (Estrutural), sendo um dos dez criminosos mais influentes do século XX.

4. Dinâmicas de Prisões e a Fuga Cinematográfica

Escadinha acumulou condenações que somavam mais de 50 anos de reclusão. Suas passagens pelo sistema eram marcadas por regalias obtidas através da corrupção de agentes e do medo.

  • A Fuga do Helicóptero (1985): Em um planejamento técnico impecável, um helicóptero Bell 206, sequestrado, pousou no presídio Cândido Mendes. Esta fuga desmoralizou o sistema penitenciário fluminense e provou que o crime organizado possuía recursos superiores aos do Estado na época.
  • Parceiros de Crime: Trabalhou estreitamente com seu irmão, Paulo dos Reis Encina (Paulo Maluco), e com José Carlos Gregório (Gordo). No Juramento, mantinha um exército particular de cerca de 100 homens armados.

5. CONCLUSÃO

A análise da trajetória de Escadinha revela que o crime organizado no Brasil não é apenas um problema crônico de segurança pública, mas um fenômeno complexo de gestão de vácuos de poder. Ele foi o empresário da violência que percebeu, antes de seus contemporâneos, que o controle territorial armado nas favelas fluminenses constituía o negócio mais lucrativo e blindado do país. Sua morte, na calçada da principal artéria logística do Rio de Janeiro, encerrou o ciclo dos “Donos do Morro” com rosto, nome e apelo popular midiático, dando lugar a estruturas corporativas criminosas mais difusas, terceirizadas, despersonalizadas e, consequentemente, mais letais.

Sob a ótica clínico-criminológica, o caso de José Carlos dos Reis Encina serve como alerta sobre a falência dos modelos tradicionais de isolamento penitenciário da época. A fusão penal perpetrada em Ilha Grande criou uma simbiose metodológica irreversível: a técnica de organização política deu disciplina, fôlego financeiro e discurso de legitimação social à brutalidade do tráfico de drogas. Escadinha não foi um desvio psicótico na curva social, mas o resultado pragmático de uma mente com alto poder de liderança operando em um ambiente de total anomia. O legado de sua engenharia criminal sobrevive na arquitetura das facções modernas, demonstrando que uma vez que o crime adquire escala empresarial e controle geográfico, sua contenção exige muito mais do que o confronto tático de rua; demanda a retomada perene e soberana da presença do Estado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ZALUAR, Alba. Condomínio do Diabo. Rio de Janeiro: Revan / UFRJ, 1994.o empresário da violência que percebeu, antes de todos, que o controle territorial nas favelas era o negócio mais lucrativo do país. Sua morte encerrou o ciclo dos “Donos do Morro” com rosto e nome, dando lugar a estruturas corporativas criminosas mais difusas e letais.

AMORIM, Carlos. Comando Vermelho: A História Secreta do Crime Organizado. Rio de Janeiro: Record, 1993.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2023. (Seção sobre Transtorno de Personalidade Antissocial / Conduta).

BARCELLOS, Caco. Abusado: O Dono do Morro Dona Marta. Rio de Janeiro: Record, 2003. (Para contextualização da evolução das redes territoriais no RJ).

COELHO, Edmundo Campos. A Oficina do Diabo: Crise e Reforma no Sistema Penitenciário Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1987.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10). Décima Revisão. São Paulo: USP, 2008. (Critérios para o código F60.2 – Transtorno de Personalidade Dissocial/Antissocial).

SOUZA, Percival. Narcotráfico: Um Negócio de Bilhões e a Guerra Contra o Crime. São Paulo: Moderna, 1999.