By Salamon, Marcelo
29/04/2026

Introdução à Criminologia Forense
José Carlos dos Reis Encina, vulgo Escadinha, não deve ser analisado apenas como um indivíduo isolado, mas como o catalisador de uma mutação estrutural no crime brasileiro. Ele foi o executor prático da transição da criminalidade comum (o “vagalume”) para a criminalidade organizada de alto impacto. Esta análise se propõe a dissecar sua biografia sob o rigor técnico, afastando o mito e focando no prontuário.
1. Prontuário Biográfico e Demográfico
- Nascimento: 21 de maio de 1956, Rio de Janeiro.
- Morte: 23 de setembro de 2004 (48 anos).
- Local do Óbito: Avenida Brasil, Rio de Janeiro (perseguição seguida de confronto).
- Raio de Ação: Morro do Juramento (seu reduto principal), Ilha do Governador e complexos da Zona Norte.
2. Etiologia Criminal e Perfil Psiquiátrico
Diferente do psicopata clássico desorganizado, o perfil de Escadinha enquadra-se no Transtorno de Personalidade Antissocial (CID-10 F60.2), porém com alto funcionamento executivo.
- Infância e Condicionamento: Criado em um ambiente onde o Estado era ausente, Escadinha desenvolveu precocemente uma aversão às instituições formais. Aos 12 anos, já possuía registros por pequenos furtos. Sua “escola” foi o Instituto Padre Severino, onde estabeleceu os primeiros contatos hierárquicos do crime.
- Frieza e Pragmatismo: Não há evidências de surtos psicóticos; suas ações eram pautadas pela racionalidade estratégica. A violência não era um fim em si, mas uma ferramenta de manutenção de poder e controle territorial.
- Sociopatia Adaptativa: Ele operava sob um código de ética próprio (“o crime não trai o crime”), o que facilitava a coesão do grupo e a gestão de subordinados.
3. A Estruturação do Comando Vermelho (CV)
Escadinha foi peça-chave na consolidação da Falange Vermelha, que evoluiu para o Comando Vermelho. Sua importância reside na união entre o preso comum e o preso político na Ilha Grande durante a ditadura militar.
- A “Doutrina”: Ele absorveu técnicas de organização celular e coletivismo dos presos políticos, aplicando-as ao tráfico de drogas. Isso transformou o crime em uma “empresa” com fundo de assistência mútua (caixa comum para advogados e famílias de presos).
- Escala de Crimes:
- Tráfico Internacional: Um dos primeiros a estabelecer rotas sólidas de cocaína vindas da Bolívia e Colômbia.
- Assalto a Bancos: Utilizava o dinheiro para financiar a compra de armamento pesado (fuzis AR-15 e granadas).
- Homicídios: Execuções sumárias de informantes (“X-9”) e rivais de outras facções (como o Terceiro Comando).
- Contagem de Vítimas: Embora o prontuário oficial registre dezenas de homicídios diretos, a escala de mortes sob sua ordem ou em decorrência da guerra de facções iniciada por sua gestão é estimada em centenas. Na escala criminal brasileira, ele ocupa o nível Alfa (Estrutural), sendo um dos dez criminosos mais influentes do século XX.
4. Dinâmicas de Prisões e a Fuga Cinematográfica
Escadinha acumulou condenações que somavam mais de 50 anos de reclusão. Suas passagens pelo sistema eram marcadas por regalias obtidas através da corrupção de agentes e do medo.
- A Fuga do Helicóptero (1985): Em um planejamento técnico impecável, um helicóptero Bell 206, sequestrado, pousou no presídio Cândido Mendes. Esta fuga desmoralizou o sistema penitenciário fluminense e provou que o crime organizado possuía recursos superiores aos do Estado na época.
- Parceiros de Crime: Trabalhou estreitamente com seu irmão, Paulo dos Reis Encina (Paulo Maluco), e com José Carlos Gregório (Gordo). No Juramento, mantinha um exército particular de cerca de 100 homens armados.
5. O Confronto Final: 2004
A morte de Escadinha ocorreu quando ele tentava retomar o controle absoluto do Morro do Juramento. Após ser interceptado pela polícia, houve uma perseguição em alta velocidade. Ele buscou abrigo em uma área de mata densa adjacente à Avenida Brasil, onde foi cercado por diversas unidades da Polícia Militar.
Diferente das narrativas heroicas, a perícia forense indicou que ele foi atingido por múltiplos disparos de fuzil após resistência ativa. Ele não morreu como um herói de música, mas como um alvo estratégico de uma operação de contenção de danos do Estado.
Conclusão
A análise de Escadinha revela que o crime no Brasil não é apenas um problema de segurança, mas de gestão de vácuos de poder. Ele foi o empresário da violência que percebeu, antes de todos, que o controle territorial nas favelas era o negócio mais lucrativo do país. Sua morte encerrou o ciclo dos “Donos do Morro” com rosto e nome, dando lugar a estruturas corporativas criminosas mais difusas e letais.