Salamon, Marcelo
03.30.2026

Os países nórdicos — Noruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia e Islândia — há muito são vistos como o “padrão-ouro” da reabilitação criminal. Com foco na dignidade humana e na reintegração, o modelo escandinavo priorizou, por décadas, o tratamento em detrimento da punição. No entanto, o avanço da criminologia moderna e o desafio imposto por crimes de natureza psicopática estão forçando uma revisão profunda nessas estruturas.
O Auge do Modelo Reabilitador (1970 – 2010)
Há 50 anos, a região iniciou uma transição radical. O conceito era o de “prisão aberta”, onde o objetivo não era apenas isolar o indivíduo, mas prepará-lo para a vida em sociedade.
- Humanização Extrema: As celas assemelhavam-se a quartos de hotel e o foco estava em terapias ocupacionais.
- Fechamento de Unidades: Em países como a Suécia e a Holanda (que influenciou fortemente a região), o número de detentos caiu drasticamente, levando ao fechamento de diversos presídios.
- A Crença na Mudança: Acreditava-se que qualquer criminoso, se tratado com empatia e educação, poderia ser recuperado.
O Desafio da Psicopatia e o Choque de Realidade
A grande lacuna desse modelo surgiu no tratamento da psicopatia e de transtornos de personalidade antissocial graves. Ao contrário do criminoso comum, o psicopata apresenta déficits biológicos e estruturais na empatia e no controle de impulsos, o que torna os métodos puramente “pacifistas” ineficazes.
Estudos criminológicos recentes na região demonstraram que:
- Manipulação do Sistema: Indivíduos com traços psicopáticos frequentemente utilizavam os benefícios das prisões abertas para manipular terapeutas e obter liberdade precoce.
- Taxas de Reincidência: Em crimes violentos específicos, a reabilitação baseada apenas no diálogo não apresentou os resultados esperados, gerando um sentimento de insegurança na população.
- Casos Paradigmáticos: Crimes de extrema violência e sem remorso chocaram a opinião pública, evidenciando que o sistema não estava preparado para conter indivíduos que não respondem aos estímulos sociais convencionais.
O Presente: A Reabertura e o Reforço da Segurança
Na última década, o cenário mudou. Países como a Suécia e a Dinamarca voltaram a investir na construção e reabertura de presídios de segurança máxima. Não se trata de um abandono total da reabilitação, mas de um ajuste pragmático.
- Custódia Protetiva (Forvaring): Na Noruega, por exemplo, utiliza-se a detenção preventiva. Se um criminoso com perfil psicopático é considerado um perigo contínuo, ele pode ser mantido preso indefinidamente, com revisões periódicas, mesmo após cumprir a pena máxima inicial.
- Novas Estruturas: As novas unidades focam em contenção rigorosa e monitoramento tecnológico, reconhecendo que a segurança da sociedade deve prevalecer em casos onde a medicina e a psicologia ainda não possuem “cura”.
- Diagnóstico Preciso: A criminologia nórdica atual investe pesado em avaliações psiquiátricas forenses logo no início do processo, separando quem pode ser reabilitado de quem exige isolamento.
Conclusão
A trajetória dos países nórdicos nos últimos 50 anos mostra que a utopia de um mundo sem prisões encontrou seu limite na complexidade da mente humana. O fechamento de presídios foi um passo audacioso, mas a reabertura atual não significa um retrocesso à barbárie. Pelo contrário, representa o amadurecimento de um sistema que agora entende que o acolhimento deve coexistir com a vigilância rigorosa, especialmente quando se trata de crimes que desafiam a lógica da convivência social. O foco mudou: reabilitação para quem pode, mas contenção absoluta para quem representa um risco permanente.